Em 2003, com a estréia de O Exterminador do Futuro 3, o cinema iniciou uma nova etapa em sua forma de produzir – pela primeira vez, cópias de astros reais eram geradas por computador (e não mais por máscaras digitais do rosto), criando verdadeiros clones que eram utilizados em cenas de ação perigosa. Assim, foi possível acreditar que era mesmo Arnold Schwarzenegger quem estava pendurado em um gigante guindaste que se choca contra os edifícios. “Com O Exterminador do Futuro 3, Hollywood iniciou um novo modelo de trabalho”, afirma o pesquisador americano Edward Jay Epstein, que defende a idéia em O Grande Filme (tradução de Silvana Vieira, 384 páginas, R$ 87), principal lançamento da Summus para a Bienal do Livro.
Trata-se de uma análise apurada, que conta a evolução da indústria cinematográfica americana desde seus primórdios, quando os estúdios ainda não eram dominados por executivos, até o novo passo da revolução digital, quando a internet desponta como principal caminho de exibição. “Os principais executivos dos grandes estúdios têm um ponto em comum: todos passaram pela televisão”, comentou Epstein, que conversou com o Estado por telefone, desde Nova York. “Hoje é uma necessidade básica para quem pretende participar da revolução digital, ou seja, direcionar sua companhia da cultura analógica para a cultura digital.”
Ao contrário do início da indústria cinematográfica, quando os estúdios dependiam exclusivamente da venda de ingressos para encher seus cofres, hoje um único filme tem de ser adaptado a novas plataformas, como jogos, pay-per-view, programas de TV e DVDs interativos. “Desde seu nascimento, o cinema mantém sua essência, que é contar uma história. O que mudou foi sua adaptação aos avanços, como o surgimento do som, das cores, da exibição em tela grande e, agora, em tela pequena, como a de um celular.”
Para a maioria dos novos executivos, o cinema parece ser um negócio em declínio – a sala escura e a tela grande, bem entendido, pois a sedução da narrativa parece ser interminável. A boa notícia, para quem é apaixonado pela forma tradicional de exibição, é que há resistência, em que as salas representam o primeiro passo de uma longa cadeia produtiva de gordas bilheterias.
É o caso de Batman – O Cavaleiro das Trevas, que estreou no mês passado – tornou-se comum o controle rigoroso do fôlego de cada filme nas diferentes formas de exibição. Assim, o filme de Christopher Nolan chegou aos cinemas com um cuidadoso cronograma, ou seja, enquanto Batman continuar atraindo um grande número de acessos nos sites de busca, é sinal de que pode continuar em cartaz. Tão logo as cifras começarem a cair, é chegado o momento de preparar seu lançamento em DVD ou mesmo exibição em TV paga.
“Os cálculos não podem falhar, pois as estatísticas não são favoráveis”, lembra Epstein. “Afinal, atualmente apenas 2% dos americanos vão algum dia ao cinema, enquanto mais de 95% assistem a algum programa na tevê.”
Outro aspecto apresentado pelo pesquisador está no conflito cultural provocado pela fronteira digital. Os atuais filmes de ação têm tanto uma equipe que trabalha no set (atores, diretores, técnicos em geral etc.) como um numeroso batalhão da computação gráfica, que tem pouco ou nenhum contato com o primeiro grupo. “Com o aumento geométrico da capacidade informática que estará à disposição de Hollywood em um futuro próximo, a tendência será a crescente substituição de boa parte da produção convencional pela animação digital.”
No comando dessa equipe, vai continuar fortalecida a figura do produtor. São poucos, no entanto, no entender de Epstein, que mantêm o perfil do grande executivo. Entre eles, estão George Lucas, Steven Spielberg, Jerry Bruckheimer e, surpresa, Tom Cruise. “Ele conseguiu uma boa experiência ao produzir seus filmes por uma companhia própria (a Cruise/Wagner Productions), além de participar do gerenciamento da United Artists desde 2006 “, afirma. Mas, com os estúdios sustentados por carteiras agressivas de investimento, que recuam ao menor sinal de fracasso, a sorte está lançada.
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