Na manhã da última sexta-feira, 19 de setembro, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, visitou a biblioteca particular de José Mindlin – dono de um acervo bibliográfico e documental raro sobre a história e a cultura brasileiras -, localizada no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo.
A Coleção Brasiliana do bibliófilo, que conta com 20 mil títulos entre relatos de viajantes, literatura brasileira e portuguesa, documentos, folhetos e várias primeiras edições de obras importantes, será transferida até o final de 2009 para a Universidade de São Paulo (USP).
A doação feita por Mindlin, sua falecida esposa Guita e seus quatro filhos foi formalizada em maio do ano passado e integra o Projeto Brasiliana USP, que irá disponibilizar os acervos da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) e do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) em um edifício de 20 mil m², que está sendo construído entre a Reitoria e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Desenvolvido pelos escritórios Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, com assessoria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o espaço abrigará os acervos das duas unidades com base em bibliotecas internacionais conceituadas como a Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos da América, e a Biblioteca Nacional de Paris, na França.
“O senhor está doando seu acervo de valor inestimável para uso público e isso é extremamente significativo”, disse o ministro Juca Ferreira, ressaltando a importância da iniciativa de Mindlin, que coleciona livros desde os 13 anos de idade.
José Mindlin destacou que seu papel enquanto dono da biblioteca é “a conservação, o estudo e o passar adiante”. “A gente passa e os livros ficam, mas nós temos que saber como eles irão ficar. Resolvemos evitar completamente o risco da dispersão e, por isso, doaremos a brasiliana completa.”
O ministro da Cultura considera a dispersão de bibliotecas um crime. “Diariamente, muitas delas são perdidas. Quem formou o acervo morre e os parentes não têm a noção da importância da conservação”. José Mindlin conta que teve sorte por seus filhos, netos e bisnetos gostarem de ler. “Há pessoas que não deixam a família mexer no acervo e isso é um absurdo porque devemos ensinar como se cultiva o gosto pelo livro”, alerta Juca Ferreira.
Para Juca Ferreira, a ativação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), política pública desenvolvida pelos Ministérios da Cultura (MinC) e da Educação (MEC) e pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN), é essencial na formação de leitores no país. “Pretendemos zerar o número de municípios sem biblioteca. Hoje são 600 em média. E, também, treinar uma geração de professores e bibliotecários que formem alunos-leitores”. Ainda falou sobra a importância de reimplantação do Instituto Nacional do Livro, como uma administração vinculada para captação de recursos no âmbito do Livro e da Leitura.
Ao contar iniciativas de promoção da leitura no país como uma biblioteca construída em uma palafita em Recife, Juca Ferreira destacou a importância da presença do Ministério da Cultura nesses locais que “cria uma rede de cooperação, proporciona o ‘do-in antropológico’, conceito desenvolvido pelo Gil [ex-ministro Gilberto Gil], provoca uma imantação e incentiva essas ações”. “O acesso à cultura é um direito e deve ser trabalhado com a mesma importância que outras políticas públicas, como saúde e saneamento básico, por exemplo”, completou.
Biblioteca Brasiliana Digital
Diante da necessidade de preservação e difusão do acervo para acesso universal e irrestrito, a Brasiliana USP desenvolve a Biblioteca Brasiliana Digital, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sáo Paulo (Fapesp). Todo acervo da BBM e do IEB será digitalizado e disponibilizado no site da Biblioteca (www.brasiliana.usp.br).
“Acreditou-se que o livro seria algo superado diante das novas tecnologias, mas ele é indispensável enquanto objeto. A tela do computador é um meio complementar para a leitura e mais pessoas estão escrevendo com o estímulo da Internet. É extremamente importante o incentivo ao uso de outros suportes para reforçar o livro”, considerou o ministro da Cultura.
Segundo o coordenador do projeto, István Jancsó, o orçamento para o projeto é de R$ 30 milhões, financiados via Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, aporte de R$ 15 milhões da USP e contribuições de instituições e empresas nacionais e estrangeiras. O espaço proporcionará a preservação do acervo, acesso aos originais, reprodutibilidade e, principalmente, democratização da cultura e da experiência da biblioteca através de cursos de treinamento, assessoria a outros projetos, convênios e parcerias.
José Mindlin e sua Brasiliana
“Sempre tudo foi escolhido por mim e comprado por mim, no Brasil e no exterior, de modo que há obras que datam do Século XVI e que são fundamentais, como a edição latina de 1508 da primeira coletânea de viagens que menciona a descoberta do Brasil, reunida pelo italiano Fracanzano da Montalboddo.” Mindlin afirma que não é exagero dizer que ele conhece cada um de seus livros e que sabe onde estão. Jornalista, advogado e empresário, cultivou paralelamente à sua carreira, o prazer pela leitura e o interesse por obras raras.
O bibliófilo presenteou o ministro com o livro Destaques da Biblioteca Indisciplinada de Guita e José Mindlin e pediu que ele deixasse uma mensagem em um caderno. “Eventualmente, pedimos que os visitantes deixem suas impressões sobre a Biblioteca Mindlin”, diz a bibliotecária Cristina Antunes, responsável pelos cuidados com o acervo.
Rodeado de livros antigos, alguns com dedicatórias de grandes autores como Raquel de Queiróz e Carlos Drummond de Andrade a Mindlin, o ministro Juca Ferreira revelou: “com tantas questões a serem resolvidas no Ministério aqui é um verdadeiro oásis”. Com satisfação, Mindlin respondeu que “mostrar um livro para quem gosta é um prazer insubstituível”.
(Texto: Karina Gomes, da Representação Regional de São Paulo/MinC)
(Fotos: Gustavo Scatena, da Imagem Paulista Fotografia)

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