‘Eu me tornei um pirata de mim mesmo”, disse Paulo Coelho ontem à platéia de jornalistas reunidos na conferência de abertura da 60aedição da Feira do Livro de Frankfurt. Sentado ao seu lado, o diretor da Associação de Livreiros e Editores da Alemanha, Gottfried Honnefelder, não parecia muito satisfeito com o rumo da conversa. Ele acabara de falar sobre a necessidade de se estabelecerem regras para o compartilhamento de livros na rede, mas o escritor brasileiro iniciou um relato entusiasmado sobre suas experiências oferecendo aos leitores links para versões piratas das próprias obras, no blog Pirate Coelho (http://piratecoelho.wordpress.com). Convidado de honra da abertura do maior evento da indústria editorial mundial, Coelho falou do futuro do mercado com senso de urgência, como se fosse um consultor tentando abrir os olhos de um CEO distraído: “Ou nos adaptamos ou morremos”.
Autor lembra que vive de direitos autorais
Percebendo a contrariedade do colega de mesa, Coelho — que comemora em Frankfurt a marca de cem milhões de exemplares de seus livros vendidos no mundo todo — brincou ao reconhecer que a questão dos direitos autorais na internet ainda estava por ser resolvida.
“Internet” e “digitalização” foram palavras mencionadas quase tantas vezes quanto “livro” nos discursos de Coelho, Honnefelder e do diretor da Feira, Juergen Boos. O assunto não é novo para a indústria editorial, Honnefelder lembrou, mas a nova geração de leitores de e-books e o lançamento do Kindle (aparelho de compra e leitura de e-books da Amazon.com) parecem ter convencido o mercado de que esse logo deixará de ser um assunto de especialistas: 42% dos produtos em exibição nos pavilhões da Feira são livros, enquanto 30% são digitais, enumerou Boos. — O que mudou é que agora temos a tecnologia para levar o e-book ao mercado de massa — disse Honnefelder. — Mas precisamos de regras e de moralidade na internet. Se é errado roubar um livro de uma livraria, por que na internet deveria ser diferente? Coelho disse que vive de direitos autorais e que não tem solução para a questão, mas contou que no seu caso a divulgação gratuita pela web ajudou a venda de edições impressas.
Ele citou especificamente o caso da Rússia, onde as vendas anuais de “O alquimista” saltaram de dez mil para um milhão movidas pela disseminação de um arquivo pirata da obra. A Feira começa a funcionar de fato hoje, com 7.373 expositores de 101 países ocupando os estandes que ontem ainda estavam sendo montados. O país-tema deste ano é a Turquia, e uma repórter turca foi responsável por uma pequena saia-justa após a palestra de abertura.
— Na sua fala, você não mencionou a Turquia, então queria saber quais seus autores turcos preferidos — disse ela a Coelho. — Vocês têm um Prêmio Nobel, vocês têm uma literatura muito rica, a tradição sufi — o brasileiro respondeu. — E você tem razão, eu não citei a Turquia e me desculpo por isso.
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