Uma rede audiovisual conectando políticas públicas municipais, estaduais e federal. Graças a ações nos três âmbitos, o movimento cineclubista pôde rearticular-se dos golpes sofridos nas décadas de 1970 e 1980: o surgimento do VHS, com a conseqüente proliferação das videolocadoras e o desmantelamento das políticas audiovisuais promovidas pelo Governo Collor.
Se o cineclubismo perdeu espaço como movimento e passou a promover ações de modo isolado e sem repercussão, a partir do início dos anos 2000 os cineclubes voltam a ganhar nova força e relevância graças à intervenção do Estado. Em 2003, o Ministério da Cultura, através da Secretaria de Audiovisual, promove a Jornada Nacional de Cineclubes, evento que conta com a participação de antigos cineclubistas para discutir o movimento e pensar soluções para o desmantelamento da atividade.
A partir do evento, batizado de “Jornada de Rearticulação”, o Conselho Nacional de Cineclubes é reerguido e 9 novas associações e federações são criadas. O cineclubismo volta a atuar enquanto movimento nacional graças ao investimento, incentivo e estímulo promovido a partir de estratégias simultâneas que procuravam abarcar diferentes etapas e problemas dos cineclubes.
Reerguimento
Estratégias que, hoje, estão a pleno vapor. O secretário do Audiovisual, Silvio Da-Rin, aponta três programas do Governo Federal que têm, direta ou indiretamente, ligação com o reerguimento do movimento cineclubista. “Em primeiro lugar, temos a Programadora Brasil, uma empacotadora de conteúdo nacional”, cita o secretário. “Através de uma curadoria e extensa equipe de críticos e profissionais ligados ao cinema, entramos em contato com os autores de produtos audiovisuais e firmamos contratos. Depois os filmes são digitalizados e disponibilizados para exibições não comerciais”, explica. Os cineclubes podem se associar a Programadora Brasil através do site do programa. Atualmente, estão disponíveis mais de 300 títulos.
Outro programa, o Olhar Brasil, tem foco diferente. Através de edital lançado em 2005, Prefeituras e instituições sem fins lucrativos passaram a fazer parte de um circuito formado por 11 Núcleos de Produção Digital. O programa de capacitação oferecia equipamentos de captação de imagem, som e edição. “Além da formação e capacitação profissional, o Olhar Brasil apóia a produção independente, descentralizando a produção e fornecendo material para a Programadora Brasil”, aponta Silvio Da-Rin. “Agora, estamos dinamizando o programa e promovendo uma maior interação entre os NPDs, que, até o final dessa gestão, devem compor 27 núcleos, um em cada estado”, adianta.
Nova roupagem
Se o conteúdo e a capacitação estão garantidos, o Circuito Brasil se preocupa com a difusão desse conteúdo. “O Circuito Brasil sucedeu o Pontos de Difusão Digital, adotando um nome mais auto-explicativo, funcionando como Pontos de Exibição Audiovisual”, discorre. O objetivo é criar cerca de 2 mil cineclubes em zonas vulneráveis que têm inclusão prevista na agenda social do governo. Ligado a outro programa, o Mais Cultura, de caráter transversal e que mobiliza diversas secretarias do Ministério da Cultura, o Circuito Brasil visa ao “aprofundamento do sentimento de cidadania e pertencimento nacional, sendo utilizado como uma ferramenta cultural de inclusão social”, conforme relata Da-Rin.
O Mais Cultura Audiovisual é uma ação mais completa do Governo Federal e funciona como o Circuito Brasil com uma nova roupagem. “Além de disponibilizar os equipamentos e o conteúdo de exibição, através da Programadora Brasil, o programa visa ainda à oferta de oficinas de capacitação de cineclubistas”, esplana Frederico Cardoso, coordenador do Programa Mais Cultura, ligado à Secretaria de Audiovisual.
Sustentabilidade
“Essas oficinas serão coordenadas pelos cineclubes filiados ao Conselho Nacional dos Cineclubes ou a associações e federações do movimento”, desenvolve. “O planejamento é que essa ação crie, até o final de 2010, cerca de 1.200 pontos de exibição audiovisual, dando sustentabilidade ao movimento cineclubista”, calcula Frederico. A idéia é que esses pontos funcionem em rede nacional, privilegiando o cinema nacional. “A obrigatoriedade é que as sessões seja semanais, com 60% dos produtos exibidos de origem nacional”.
O foco são cerca de mil municípios incluídos em outro programa, o Territórios da Cidadania, que cobre zonas rurais e do interior com população pequena e sem equipamentos culturais, além das periferias dos grandes centros urbanos. “Entendemos que a atividade cineclubista funciona como um importante elemento formador de platéia. Esses programas buscam uma relação com um viés cineclubista, com a aproximação entre o programador e o público, através de debates”, aponta Frederico.
O cenário local
No âmbito municipal, um equipamento da Prefeitura de Fortaleza, ligado à Secultfor, tem se destacado enquanto apoiador do movimento cineclubista: a Vila das Artes. Entre suas ações, alguns projetos ganham visibilidade pela formação, difusão, fomento e estruturação da atividade cineclubista em Fortaleza. Entre os projetos, dois são mais importantes: o Pontos de Corte, que capacita agentes culturais que atuam como exibidores independentes, e o Cineclube da Vila das Artes, que exibe filmes de difícil acesso seguidos de debates com especialistas convidados. Uma outra ação que passa pela Vila das Artes é o projeto Cinema de Canto a Canto, de caráter itinerante e com exibição pública nas praças de Fortaleza, todo último domingo do mês.
“O cineclubismo é encarado pela Secretaria de Cultura de Fortaleza e seus equipamentos culturais como uma política fundamental e democrática de estruturação e fomento ao acesso e produção audiovisuais”, diz Philipi Bandeira, coordenador de Audiovisual da Comissão de Linguagens da Secultfor. “A Secultfor tem feito articulações para dar apoio a cineclubes em execução em universidades, centros comunitários. Mas esta é uma política com resultado a logo prazo”.
Participação social
Mas as ações não se limitam à Vila das Artes. “Para o próximo Edital das Artes, estamos discutindo a inserção de categorias de exibição e difusão para financiamento de projetos. Ainda não há uma posição oficial e definitiva, mas já podemos indicar mais esta política pública como um caminho sendo trilhado”, adianta. Discussões acerca da criação do Plano Municipal de Cultura também entram no debate das políticas públicas municipais relacionadas ao movimento cineclubista.
“A área do audiovisual e a atividade cineclubista são prioridades tão importantes quanto a produção ou a economia acerca do setor”, acredita Philipi. Para a redação do PMC, será estruturado o fórum de audiovisual, de base popular e participativa, que irá indicar ou eleger os representantes do setor para compor o Conselho Municipal de Cultura, de caráter consultivo e deliberativo. “O movimento cineclubista estará certamente presente nesta composição e irá propor e gerir as políticas para a área”.
O cenário é assustador: a atividade cinematográfica ainda é escassa, a formação começa a se profissionalizar de maneira tardia e o circuito cinematográfico é restrito e excludente. As políticas públicas voltadas ao movimento cineclubista se apresentam, então, como um respiro. “O cineclube é uma grande janela que disponibiliza as produções que não encontram espaço no restrito e monopolizado mercado audiovisual”, avalia o coordenador.
O movimento tem feito sua parte com um projetor digital, uma caixa de som e um aparelho de DVD, proporcionando um momento memorável para pessoas excluídas do consumo de bens culturais. “E sem uma postura assistencialista. Quem realiza as exibições são pessoas da própria localidade, que pensam uma política específica e localizada para intervir no meio social, entretendo, mas também deslocando a percepção de espaço social”, avalia Philipi. (FF)
CENÁRIO
92% da população brasileira nunca foi a um cinema, de acordo com o Concine. Reflexo do encolhimento do circuito exibidor do País e dos preços abusivos que afugentam grande parte do público.
Texto: Fábio Freire (Repórter)/Diário do Nordeste

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