Brasil Acesso à Informação
quinta-feira, 24 de maio de 2012 RSS Ouvidoria Fale com o Ministério
« Voltar Imprimir

O destino de uma obra-prima

Artigo de autoria do Paulo Sergio Duarte, publicado no Primeiro Caderno do jornal O Globo, de 20/11/2008

A Funarte, tal como a Finep para a ciência e a tecnologia, teria que ser redesenhada como uma agência de fomento de projetos

A transferência da Funarte para Brasília já suscita uma discussão em torno de mais um esvaziamento do Rio. De fato, é a Funarte que se encontra esvaziada desde o governo Collor. O retorno da Funarte às suas funções passa pela transferência para Brasília para que possa cumprir, além do posto de fomento, a de assessorar o ministro da Cultura na formulação de políticas públicas nas suas áreas de atuação.

Caberia à Funarte contrabalançar a hegemonia da cultura de massa ao abrir o caminho para jovens que possam influir a favor das manifestações artísticas impossíveis de serem absorvidas pelo mercado. A Funarte, tal como a Finep para a ciência e a tecnologia, teria que ser redesenhada como uma agência de fomento de projetos.

O Brasil pode ganhar ou perder com a transferência da Funarte para Brasília, dependendo do lugar político e do desenho que se dará à instituição. E o Rio também pode perder ou ganhar. Isso depende do destino que se dará ao Palácio Gustavo Capanema, uma obra-prima da arquitetura do século XX, atual sede da Funarte. O projeto, de 1936, foi realizado por uma equipe na qual participaram Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e Carlos Leão. Teve a consultoria de Le Corbusier, que deixou muitas lições e alguns esboços, transformados, desenvolvidos e detalhados pelos arquitetos brasileiros. O uso dos pilotis é uma dessas marcas; a pioneira presença do brise-soleil na fachada norte é outra distinção, e o terraço-jardim desenhado por Burle Marx outro traço de uma época em que se fazia arquitetura de verdade. Tudo convergiu para uma notável aula magna sobre a arquitetura moderna, um capítulo da história da arte no qual o Brasil, outrora, contribuiu de forma relevante.

Pelas suas dimensões, o edifício comporta desde o uso das galerias de arte, auditório e sala de música, já existentes, a institutos de documentação e pesquisa nas áreas das diversas artes e da arquitetura, comportaria até escolas de música e dança. Seus espaços, tal como os grandes palácios da Europa usados para fins culturais, terão que sofrer adequações. Preservados, na sua configuração original, o andar do gabinete do ministro e mais dois ou três como exemplo do projeto original, todos os outros podem sofrer modificações internas, para serem adaptados. Uma visão estreita de conservação do patrimônio histórico poderia vir a exigir a manutenção integral do estado atual do prédio, e seu uso só se prestaria a funções administrativas. Não vejo destino mais funesto que esse.

Qual seria então a fortuna do monumento? Continuar a sediar burocracias ou transformá-lo num importante instituto cultural? Isso depende de um projeto consistente e de um programa de uso que envolva uma equipe especializada. E, posteriormente a essa conceituação e programação, o projeto de restauração e adequação a novos usos.

Mas, sobretudo, depende de um projeto financeiro que viabilize sua implantação e consolidação. Desde já, deveria ser descartada a hipótese de transformá-lo em mais uma autarquia. A administração pública, direta e indireta, está subordinada a regras e procedimentos que estão distantes da velocidade exigida pelos processos culturais contemporâneos. Quem teria cacife para bancar um projeto dessa envergadura? Corporações estatais, passado o pânico da marola. Grandes empresas privadas ou grandes bancos que mantêm experiência na gestão de institutos culturais. Quaisquer dessas empresas — públicas ou privadas — podem vir a ser incentivadas pelo governo a assumirem a gestão do novo instituto cultural. E aí o Rio não perderia; ganharia com a transferência da Funarte para Brasília.

PAULO SERGIO DUARTE é professor de História da Arte e de Gestão do Patrimônio Cultural na Universidade Candido Mendes.

Compartilhe:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • MySpace
  • TwitThis
  • email
  • LinkedIn
Reproduzido conforme o original, com informações e opiniões de responsabilidade do veículo.

Participação do Leitor

Espaço reservado exclusivamente para comentários acerca da matéria ou publicação veiculada nesta página. Solicitação de informações ou dúvidas devem ser encaminhadas por meio do Fale com o Ministério; reclamações ou denúncias devem ser dirigidas para Ouvidoria.

*

max. 1000 caracteres


Regras para comentários:

1. Os comentários terão moderação desta Assessoria de Comunicação.

2. Comentários que fujam ao teor da matéria serão excluídos.

3. Ofensas e quaisquer outras formas de difamação não serão publicadas.

4. Não publicamos denúncias. Nestes casos, serão enviadas à Ouvidoria, que as encaminhará aos órgãos cabíveis.

5. A postagem de comentários com links de matérias não produzidas por este ministério será excluída.

6. Respostas a questionamentos e esclarecimentos exigem consulta, impedindo-nos, por vezes, retorno imediato.