A capoeira, junto ao candomblé e o samba, é uma das mais importantes manifestações de nossa cultura. Trazida pelos escravos africanos, que aqui chegaram para a cultura canavieira, desempenhou um forte papel na resistência cultural dos afro-brasileiros. Seus praticantes exerceram função preeminente em episódios da história do Brasil, como na Guerra do Paraguai; na luta pelo abolicionismo e na transição do Império para a República. A lutaarte já surge internacional, pois é o encontro das nações: congos, angolas, benguelas, moçambiques, minas, rebolos e cassanges.
No contexto pós-abolicionista, a capoeira foi perseguida, e sua prática considerada crime.
Assim como o candomblé, sobreviveu e recontextualizouse. Hoje é elemento referência da cultura brasileira. Capoeiras de todos os continentes chegam ao Brasil, para beber na fonte dos velhos mestres e vivenciar sua filosofia, que nos remete ao caráter da sociedade brasileira, formado por tolerância, hospitalidade, pluralidade e originalidade.
Sua expansão para o mundo teve início com dois gênios da Bahia: mestres Bimba e Pastinha, este filho de um espanhol com uma negra e que recebeu em sua academia, no Pelourinho, Jorge Amado, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Caribé, Mário Cravo. As vozes dos pioneiros baianos entraram nos corações dos jovens de esquerda, que buscavam ideais políticos.
Meio século depois, o mundo se africaniza com a capoeira. Milhares de praticantes negros, brancos e amarelos, católicos e muçulmanos, judeus e árabes, do velho e novo mundo, chegam ao Brasil falando e cantando em português as ladainhas e corridos da capoeira. Os discípulos de Pastinha, João Grande e Jelon Vieira, e de Bimba tiveram seus trabalhos, que realizam há duas décadas em Manhattan, reconhecidos pelo governo da Casa Branca. Lá receberam o National Heritage Fellowship Award. A mais importante homenagem da cultura norte-americana.
O ex-ministro Gilberto Gil, depois de encontrar dezenas de mestres nos aeroportos internacionais de todos os continentes, disse que “a capoeira se espalhou pelo mundo sem nenhuma ajuda governamental”. Iniciou então o processo de reparação desta dívida, criou o primeiro edital de apoio a projetos, grupos e pesquisadores.
Contribuiu, junto com a Fundação Palmares, para que a arte afro-brasileira fosse reconhecida como patrimônio cultural.
Mas Pernambuco saiu na frente e aprovou uma pensão vitalícia para os velhos mestres.
Devolvendo a eles muito pouco, comparado ao que produziram com sua arte, para divulgar positivamente o País. A Bahia, a “meca da capoeira”, ainda está timidamente se mobilizando para o reconhecimento destes lutadores, que levaram ao mundo um Brasil alegre e solidário; criando um mercado de trabalho de difícil mensuração.
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