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Resistindo ao tempo e ao vento

O Globo - RJ, Rachel Bertol, 20/05/2009

Acervo de Erico Verissimo será transferido para o Rio e o de Quintana também vai deixar o Sul

A notícia deixou os gaúchos em polvorosa: o Rio Grande do Sul deve perder os acervos de seus dois maiores escritores do século XX, Erico Verissimo e Mario Quintana.

A família Verissimo fechou acordo para transferir os dez mil documentos relativos à vida e à obra do autor da trilogia “O tempo e o vento” para o Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio. Já a saída do material de Quintana do estado, segundo sua sobrinha Helena Quintana, é certa. O que ela ainda negocia é o destino; uma possibilidade seria também o IMS.

Os herdeiros de Verissimo assinaram contrato de comodato por dez anos, depois dos quais voltarão a decidir sobre os rumos do acervo, com originais, cartas, fotos, desenhos. O conjunto seguirá, nas próximas semanas, para o anexo que o IMS inaugurou no fim do ano passado nas suas instalações da Gávea. O prédio foi projetado especialmente para a preservação de coleções literárias, com condições especiais de climatização e estrutura capaz de suportar o peso de toneladas de papel. No local, o instituto aproveita sua experiência com acervos fotográficos, mantidos na Gávea em outro anexo, que este ano completa dez anos.

Faz poucos dias, a imprensa gaúcha noticiou a transferência, deixando muita gente por lá indignada. O estado governado por Yeda Crusius tenta impedir a saída dos documentos.

A secretária de Cultura, Mônica Leal, garantiu ontem ao GLOBO que o estado tem plenas condições de manter o acervo, em instituições públicas ou privadas. Mas voltar atrás é hipótese remotíssima.

- Não há condições para manutenção no Sul. Estão criando polêmica onde não existe. É melhor para o acervo e para o estado que ele esteja em local protegido, com maior exposição.A ideia do IMS é digitalizar tudo – afirma Fernanda Verissimo, que representa o pai, Luis Fernando, que está na Europa.

A família planejava deixar o material histórico no Rio Grande do Sul, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, reformado recentemente.

Em 2005, quando os Verissimo decidiram retirá-lo da PUC-RS, onde estava desde o início dos anos 1980, os documentos voltaram para a casa onde Erico morou, hoje endereço do filho Luis Fernando, em Porto Alegre.

- O projeto do Centro Erico Verissimo era abrigar vários acervos, mas tomou outro rumo, com funções diferentes, nunca se constituiu como espaço propício à manutenção e à conservação.Ainda mais se compararmos com as condições oferecidas pelo IMS. Se ficasse aqui, seria todo um trabalho por fazer – diz Fernanda por telefone, de Porto Alegre.

Helena Quintana também é taxativa ao afirmar que o acervo do seu tio não continuará no Rio Grande do Sul, nem mesmo na tradicional Casa de Cultura Mario Quintana.

- A casa de cultura não tem condições – declara, por telefone.

Samuel Titan, do IMS, confirma que “provavelmente” o material do poeta irá para a instituição, mantida por um fundo deixado pelo embaixador Walter Moreira Salles.

Centro também abrigava coleção de Moacyr Scliar

Assim como o de Verissimo, o acervo de Quintana era mantido na PUC-RS, de onde foi igualmente retirado em 2005. A responsabilidade por ambos era da professora Maria da Glória Bordini, coordenadora do Centro de Memória Literária, criado nos anos 1980 por Regina Zilberman. No local, havia documentos de dez autores gaúchos mortos, como Josué Guimarães e Dyonelio Machado, além de Verissimo e Quintana, e coleções de escritores vivos, como Moacyr Scliar. Devido a mudanças administrativas na universidade, o centro foi extinto – Bordini saiu da universidade em 2007 -, e o patrimônio passou recentemente para a nova biblioteca da PUC. Nesse processo, foram retirados os acervos de Quintana, Verissimo e o de Josué Guimarães, este transferido para a Universidade de Passo Fundo (RS).

- O estado do Rio Grande do Sul não consegue financiar sua cultura – critica Maria da Glória Bordini, que continuará trabalhando no acervo de Verissimo junto ao IMS.

Em artigo para o jornal gaúcho “Zero Hora”, o professor e escritor Luís Augusto Fischer provoca: “É razoável que o Rio de Janeiro, já tão concentrador de tantas riquezas documentais do país (Biblioteca Nacional, Academia de Letras, Casa de Rui Barbosa), ganhe de presente mais este valioso acervo (de Verissimo) (e o de Quintana)? E não é uma dura ironia do destino que Erico e Quintana, justamente os nossos maiorais, que tanto tempo esperaram pela consagração acadêmica e crítica no Rio (e São Paulo), tenham seus arquivos enviados para lá?”.

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