Patrimônio da dança brasileira, o Balé Popular do Recife mostra em Brasília espetáculo no qual sintetiza expressões eruditas e de raiz
No teatro Plínio Marcos do complexo Cultural Funarte, os bailarinos pernambucanos mostram as cores, a forma e a origem das dançasEm fevereiro deste ano, o fogo consumiu um tesouro nacional. A sede alugada do Balé Popular do Recife desapareceu aos olhos atônitos de população que, em 32 anos de atividade intensa, aprendeu a se orgulhar da companhia que fez dos corpos dos bailarinos território para exprimir pesquisa sobre manifestações de raiz. Sob as labaredas, foram-se centenas de figurinos e adereços, vestígios de uma história de suor e sucesso. Felizmente, a memória do grupo está preservada não só nas lembranças de quem ficou diante do vigor pernambucano em cena. Permanece, sobretudo, nas páginas do livro Balé Popular do Recife: a escrita de uma dança (Editora Bagaço), que narra a saga da criação, detalha o método de trabalho, transcreve testemunhos de bailarinos e contém imagens que fisicamente não existem mais.
- Setecentas peças se foram no fogo. Na tragédia, ficou claro o lugar do Balé Popular do Recife no coração das pessoas. A sociedade se mobilizou fortemente para ajudar. Foi feita uma noite de dança com grupos de todas as vertentes, com renda revertida para o coletivo. O público prontamente atendeu à convocação. É uma gente apaixonada, que tem a companhia como um bem, avalia a jornalista Christianne Galdino, autora da obra, que será lançada amanhã, no Teatro Plínio Marcos do Complexo Cultural Funarte, logo após a apresentação do espetáculo Nordeste: a dança do Brasil, às 20h, com entrada franca.
De hoje a domingo, o público brasiliense tem a honra de ficar diante de uma das mais respeitáveis companhias de dança que transita, com propriedade, entre popular e erudito. Fruto do sonho armorial de Ariano Suassuna, o grupo nasceu em 1977 e virou o século com metodologia própria. Na cidade, apresenta o espetáculo síntese dessa estética, montado pela primeira vez para comemorar uma década de vida.
- É uma montagem conhecida e representativa. Quando estreou, em 1987, tinha música ao vivo e coral. Correu diversos lugares no mundo. Houve modificações naturais e incorporação de outras coreografias. No entanto, traz em si o método do grupo batizado de Brasílica, aponta Christianne.
A autora fala com propriedade da companhia, não só pela pesquisa que fez no acervo e pela coleta de depoimentos em entrevistas. Quando tinha 17 anos, ela entrou para o balé num projeto que envolvia adolescentes. Experimentou no corpo o estudo do método cujo nome se inspira nas lutas dos povos nativos do Nordeste contra os invasores.
- A gente pesquisava a origem das danças antes de ir para as coreografias. O método, que nunca foi escrito em papel, consiste em estudar os ciclos festivos (carnavalesco, junino, natalino e afro-ameríndio). Essa experiência de interseção das linguagens entre dança popular e contemporânea é única no país, observa a autora.
Na base do Balé Popular do Recife, está a família Madureira, cujo músico Antonio, conhecido como Zoca, é amigo e colaborador até hoje de Ariano Suassuna. Ela integrava, na década de 1970, o Quinteto Armorial. A ideia da formação da companhia surgiu dessa busca de fusão entre popular e erudito.
- Depois de algumas tentativas, Ariano soube que a família Madureira tinha um grupo cênico de pesquisa no universo infantil. Então, fez proposta para eles passarem ao estudo da cultura popular. Só nos primeiros anos houve subsídio do governo. Depois, a luta foi com recursos próprios, vindos de bilheterias e oficinas, aponta Christianne. Ela informa que, sem sede para dar aulas, o Balé Popular do Recife segue circulação patrocinada pela Funarte. O grupo acabou de inaugurar o Teatro Cacilda Becker no Rio.
Nordeste: a dança do Brasil
Apresentação do grupo Balé Popular do Recife, de hoje a sábado, às 20h, e domingo, às 19h, no Teatro Plínio Marcos (Complexo Cultural Funarte, perto da Torre de TV; 3322-2076). Entrada franca. Classificação indicativa livre. Amanhã, após o espetáculo, lançamento do livro Balé Popular do Recife: a escrita de uma dança, de Christianne Galdino.
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