Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, José serra,
Excelentíssimo Senhor Prefeito da Cidade de São Paulo, Gilberto Kassab,
Excelentíssimo Senhor Ministro da SEPPIR, Edson Santos,
Excelentíssimo Senhor Presidente do SESC São Paulo, Abraham Szajman,
Excelentíssimo Senhor Secretário-Geral da SEGIB, Enrique Iglesias,
Excelentíssimos Senhores Ministros da Cultura dos Estados Ibero-Americanos,
Demais Autoridades Presentes,
Meus amigos e minhas amigas,
É com muita honra e satisfação, mas também com um sentido de urgência, que venho hoje a São Paulo abrir este II Congresso da Cultura Ibero-Americana, dedicado ao tema da “Cultura e Transformação Social”. Nossa região tem vivido nos últimos dias uma crise política que põe em questão o sistema interamericano. Fantasmas do passado teimam em reaparecer, como se ainda vivêssemos os mais tristes anos da década de 70. Delegações de organismos internacionais têm sua entrada barrada no país, embaixadas sofrem ameaças e tenta-se com a força calar a voz da cidadania. É um quadro que nos deixa a todos consternados. Mas a história, ensinou-nos Marx, somente se repete enquanto farsa. As armas e a violência, que tanta infelicidade nos trouxeram no passado, já não podem imperar sobre a vontade de uma nação. Estou seguro de que em breve o bom-senso triunfará e a democracia será restaurada em Honduras. Pois o povo hondurenho comunga conosco da mesma cultura. E esta cultura, que hoje aqui celebramos, não tolera mais as quarteladas e o desrespeito ao veredito das urnas.
Quão mais fácil é o debate quando me vejo entre nossos irmãos ibero-americanos. Num instante estou em casa, e posso contar, sem o temor de ser mal-compreendido, que duas semanas atrás estive em Cuba, e senti-me como se nunca tivesse saído da Bahia: o calor, os tambores, o verde das matas, o céu sempre azul, a alegria, a música. E ainda a gente morena, que pensa, sente e se move com tanta sofisticação e criatividade. Por sete dias estive nessa ilha abençoada pela Virgem do Cobre e banhada pelas águas de Iemanjá. Pude ver de perto a grandeza de seu povo e a força de sua cultura. Não serei ingênuo a ponto de fazer juízos políticos com base em impressões de viajante. Mas, desde que voltei, uma pergunta não para de me inquietar: como pode haver no mundo quem não entenda que o bloqueio a Cuba – esse resquício anacrônico da Guerra Fria – é uma afronta aos laços de solidariedade que unem a cultura e os povos ibero-americanos? Parafraseando John Kennedy, em seu famoso discurso diante do muro de Berlim, penso que está na hora de dizermos com firmeza: “Yo soy cubano“.
Nesse intrincado cruzamento da cultura com a política podemos ver a importância do conceito de Ibero-América. Estamos unidos por duas línguas irmãs e uma história comum. Dividimos um mesmo olhar sobre o mundo, harmônico em sua pluralidade de manifestações. Esse macro-espaço linguístico, cultural, econômico e político é nosso melhor passaporte para a globalização – não a globalização selvagem e unilateral, que tende a perpetuar os mecanismos de dependência e subordinação. Falo de uma outra globalização: a globalização verdadeira, democrática e aberta à diversidade; uma globalização pluricêntrica, fundada no diálogo de culturas, numa distribuição equilibrada do poder internacional e na justa repartição dos benefícios do desenvolvimento econômico. Para rumarmos em direção a esse horizonte, precisamos da Ibero-América.
Juntos, nós somos mais fortes. E somos mais fortes porque estamos imbuídos de uma cultura cada vez mais relevante no mundo atual – uma cultura que festeja a diversidade, que se orgulha em ser igualmente negra, branca, índia e mestiça; uma cultura que não nega o papel da política, nem a relevância do estado; uma cultura que teve as veias abertas pelo colonialismo e padeceu a vergonha da escravidão, mas que hoje é capaz de dar respostas inovadoras aos desafios de uma história marcada pela desigualdade. Justamente por isso, porque temos a coragem de transformar a nós mesmos, temos também legitimidade para reclamar a construção de uma nova ordem internacional. Juntos, temos algo novo a dizer. Somos uma alternativa ao Consenso de Washington e uma resposta às ideias anglocêntricas de Huntington e Fukuyama. Juntos, somos mais que uma soma de nações. Juntos, somos o futuro.
Não foi outra a razão que nos levou a estender aos países do Caribe e aos demais estados membros da CPLP o convite para participarem conosco deste Segundo Congresso. Queremos uma Ibero-América ampla e generosa, aberta à riqueza cultural de nossos vizinhos caribenhos, africanos e timorenses. Com eles, dividimos as angústias e desafios da luta pelo desenvolvimento, mas também a fibra e o potencial para desta luta sairmos vitoriosos. Sei que ainda temos muito a caminhar até superarmos os desequilíbrios de nossas sociedades e alcançarmos o bem-estar coletivo, em um ambiente de liberdade e justiça social. Quando, no entanto, falamos em cultura, encho-me de esperança. Pois, em matéria de cultura, temos uma riqueza praticamente inesgotável.
O segredo está em aprendermos a lidar melhor com essa riqueza. De um lado, precisamos nos assenhorar, tanto no plano nacional, quanto no regional, dos benefícios da produção cultural. As indústrias culturais são um segmento cada vez mais vibrante e lucrativo da nova economia mundial. No entanto, muito do que produzimos pouco circula pelo mundo e, quando o faz, acaba controlado por grupos empresariais dos países desenvolvidos. Se quisermos de fato avançar, precisamos romper esses lanços de dependência e conquistar os espaços que nos pertencem.
De outro lado, temos de olhar com maior atenção para a repartição dos benefícios da produção e fruição cultural no interior de nossos próprios países. Precisamos de leis melhores e mais democráticas de incentivo à cultura. Precisamos de mecanismos que rompam de uma vez por todas a inércia da exclusão social e cultural. Precisamos fomentar nossa diversidade interna e levar a cultura a todos. Não podemos mais tolerar que boa parte de nossa população continue a passar a vida sem meios para ir ao cinema, ao teatro ou a um espetáculo de dança, sem condições de acesso aos livros, aos museus ou à instrução musical. “A gente não quer só comida“, já diziam os Titãs, antevendo os debates que hoje travamos: “A gente quer comida, diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída para qualquer parte“. Direito de produzir cultura e consumir cultura. Sem isso não há cidadania. Não há democracia. E não há felicidade.
Fico por aqui. Vocês já ouviram muitos discursos esta noite e preciso ainda guardar algumas ideias para a palestra de amanhã. Quero apenas recordar que o tema deste Segundo Congresso não poderia ser mais adequado: “Cultura e Transformação Social”. Temos nos esforçado bastante nessa área. Todos nós. Algo de bom já fizemos, e muito mais temos ainda por fazer. Trata-se de tarefa para muitos governos e muitos mandatos. A valorização da cultura e sua utilização como instrumento de transformação social é tema que não comporta partidarismos. Afinal, estamos diante do próprio destino de nossas nações.
Ao SESC São Paulo, na pessoa de seu Presidente, agradeço a parceria com o Ministério da Cultura na elaboração e montagem deste importante Congresso.
Ao Governador de São Paulo e ao Prefeito da capital, agradeço a acolhida nesta cidade impregnada de cultura, onde surgiu o Modernismo brasileiro e continuam a prosperar nossas vanguardas,
A meus colegas ministros, muito obrigado por nos honrarem com sua presença e suas luzes,
A todos os intelectuais, estudantes, artistas, gestores e amantes da cultura que irão participar dos debates, bom trabalho.
Muito obrigado.
Participação do Leitor
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