ÁNGELES GONZÁLEZ-SINDE REIG
É preciso situar a cultura no coração da política nos nossos países. Porque o tempo da cultura é o tempo da cidadania
As relações entre nossos países estão vivendo o melhor período da sua história. Para esse fortalecimento contribui a consolidação das democracias ibero-americanas, a sintonia política entre os dois lados e a necessidade de que enfrentemos juntos os desafios atuais.
Hoje, a dimensão dos obstáculos e das oportunidades que compartilhamos é maior que a conhecida por qualquer outra geração anterior.
Por isso, o futuro de qualquer sociedade depende tanto de um bom governo dentro das fronteiras quanto da capacidade institucional de cooperar agilmente no cenário internacional.
Pode-se afirmar, portanto, que a história nos aproxima e que o presente nos acerca, mas que nada pode nos unir mais que o futuro. Um futuro em que a cultura tem que ser a protagonista. Esse é o espírito que dá sentido ao 2º Congresso Ibero-Americano de cultura, celebrado no Brasil durante esta semana.
Mulheres e homens de 22 países ibero-americanos, de todas as idades, de todas as origens e condições sociais, nos reunimos para refletir e debater sobre o futuro da cultura. E o fazemos porque nossa meta está nos nossos princípios, porque compartilhamos uma mesma fé na força transformadora que tem a cultura e porque cremos que nos encontramos num momento decisivo para o impulso em três âmbitos: pessoal, cívico e econômico.
No âmbito pessoal, incentivar a cultura é investir na liberdade, é dotar cada cidadã e cada cidadão de mais ferramentas para que se desenvolvam individualmente.
Mas, se a cultura nos cultiva, é não somente porque aumenta as nossas capacidades mas também porque nos nutre de valores imprescindíveis, como a responsabilidade e o compromisso, o esforço e a tolerância. Ela altera o modo como nos vemos e, ao fazê-lo, melhora nossa autoestima -e, ademais, transforma nossa maneira de ver os outros.
Por essa mesma razão, no âmbito cívico, incentivar a cultura significa fortalecer a convivência, reforçar o respeito e lutar contra todas as formas de discriminação.
Por isso é que devemos nos esforçar para que aqueles que têm mais barreiras para acessar a cultura ou se expressar artisticamente tenham a oportunidade de superar o atual abismo cultural que ainda persiste nas nossas sociedades.
É necessário termos sempre muito presente que os benefícios que a cultura pode trazer não são somente aqueles mensuráveis, numeráveis.
Há também os benefícios imateriais -que são, curiosamente, os que mais geram riquezas no médio e no longo prazos, como a preservação da diversidade ou a luta contra a exclusão social.
Não é fruto do acaso que as sociedades mais avançadas, as que contam com os melhores índices de bem-estar, sejam sempre aquelas em que a pluralidade e o acesso à cultura estão mais garantidos.
No âmbito econômico, impulsionar a cultura implica modernizar o tecido produtivo dos nossos países, acabar completamente com o modelo da depredação e avançar em direção a um modelo mais centrado na inteligência e na sensibilidade.
Por isso, considero que a celebração do 2º Congresso Ibero-Americano de cultura acontece em um momento oportuno: o cenário atual da crise econômica.
Os antigos gregos definiam as crises como os períodos em que o velho terminava de desaparecer e o novo terminava de nascer. O final do neoliberalismo, da cosmovisão despreocupada com a igualdade e obcecada pelo consumo rápido e pelos benefícios do curto prazo, proporciona a nós a intuição de uma ocasião que, juntos, devemos usar não só para aproveitar as oportunidades empresariais, não só para projetar em alta definição a imagem dos nossos países, mas também para melhorar a qualidade de vida das futuras gerações.
O propósito do 2º Congresso Ibero-Americano de cultura é, portanto, situar a cultura no coração da política nos nossos países. É uma aspiração nobre, necessária. E é uma meta possível e de progresso: existe material de sobra para levá-la adiante -o talento de milhões de pessoas-, mas não podemos alcançá-la sem uma dessas poucas coisas que nunca sobram -sem a vontade.
Evidentemente, é necessária a vontade dos governantes, mas também faz falta, e não em menor medida, a vontade dos meios de comunicação, dos empresários e, acima de tudo, da imensa maioria das cidadãs e dos cidadãos. Porque o tempo da cultura é o tempo da cidadania.
*ÁNGELES GONZÁLEZ-SINDE REIG , roteirista e diretora de filmes, é ministra da cultura da Espanha.
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