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Devorar cultura

Correio Braziliense - DF, Ronaldo de Oliveira, em 25/10/2009

Em troca de incentivos fiscais, empresas dariam um vale de R$ 50 aos funcionários para compra de livros e ida a espetáculos. Projeto de lei passou pelo Câmara e está no Senado

A ideia é simples: um cartão magnético com R$ 50 para trabalhadores que recebem até cinco salários mínimos gastarem mensalmente em teatros, cinema, museus, na compra de livros. Uma espécie de vale-alimentação cujo bem a ser consumido é cultural. O sinal verde para os profissionais devorarem cultura pode ser dado pelos parlamentares. No último dia 14, o projeto de lei foi aprovado no plenário da Câmara dos Deputados. Ainda precisa do aval do Senado.

O valor é menor do que a média investida pelos brasileiros em cultura, segundo o Anuário de Estatísticas Culturais do Ministério da Cultura e um estudo feito pela Federação do Comércio intitulado O consumo de cultura do brasileiro. No país, reservamos 4,4% do orçamento mensal com cultura, uma média de R$ 64,53, gastos principalmente com livros e shows.

Ainda assim, Ricardo Abdo Gomes dos Santos comemora a iniciativa. “É ótima se não ficar apenas no papel. Se bem que acho difícil os empresários aderirem a esse programa”, inquieta-se Ricardo Abdo Gomes dos Santos, de 24 anos. O engenheiro eletricista tem o hábito de fazer programas culturais em seus momentos de lazer, mas reclama do preço dos eventos e das poucas opções gratuitas ou mais acessíveis economicamente. “Aqui em Brasília, tudo é caro e algumas opções mais acessíveis, como o Centro Cultural do Banco do Brasil, são de difícil acesso”, observa.

Diferencial
Roberto Nascimento, secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, discorda de Ricardo. Segundo ele, a formação profissional cultural ainda é pouco valorizada no Brasil, mas já existe um segmento do empresariado mais ligado ao mundo globalizado que percebe a importância da cultura no rendimento de seus funcionários. “A cultura de um indivíduo representa um diferencial competitivo, no sentido de criar trabalhadores mais comprometidos com a sua empresa. A cultura trabalha em uma dimensão subjetiva que fortalece o senso crítico e estético das pessoas. Inquietações do indivíduo que o qualifica para a sua vida profissional”, acredita.

O texto da lei que foi aprovado na Câmara contempla ainda os servidores públicos, estagiários e há uma proposta para a inclusão dos aposentados. Trabalhadores que recebam mais de cinco salários mínimos também poderão receber o vale, mas não em caráter obrigatório.

O projeto do Ministério da Cultura é pensado desde 2003, mas só agora foi aprovado pelos deputados. “Demorou a sair porque o projeto prevê incentivo fiscal para os empresários que aderirem; por isso, tivemos que consultar o Ministério da Fazenda para que eles fizessem suas avaliações de impacto”, conta Roberto Nascimento. Com a aprovação do projeto, o governo pretende aumentar em até R$ 7,2 bilhões o consumo cultural no país anualmente.

A coordenadora do Programa de Arte e Cultura da Universidade Católica de Brasília, Renata Sthepanes, está animada. “Toda tentativa em prol da cultura vale a pena”, acredita. Carmen Cavalcanti, diretora da Rhaiz Soluções em Recursos Humanos, também comemora. “A cultura é uma grande aliada dos recursos humanos na formação profissional, por isso, qualquer incentivo a ela é bem-vindo”. Já a diretora do Grupo Labor, Márcia Garcia, ainda vê restrições. “Não vejo esse vale como instrumento que vai potencializar a cultura entre os mais jovens; talvez atinja os mais velhos. Além disso, pode restringir o consumo aos locais credenciados”, argumenta.

Palco de oportunidades

Saber sobre diferentes gastronomias, filmes e literaturas ajudam os profissionais cada dia mais antenados com o mundo globalizado. Foi o que percebeu a publicitária Juliana Marinho Pires, 32 anos. A brasiliense começou a montar sua bagagem cultural desde cedo. Aos 17 anos, fez intercâmbio para a Alemanha e não sabia que esse tempo no exterior seria decisivo para sua carreira. “Quando veem no meu currículo minhas experiências no exterior, sou mais valorizada”, informa.

Depois dessa experiência, a publicitária não parou mais de absorver não só a cultura brasileira como a de outros países. Da Alemanha, desembarcou em Barcelona, onde fez uma pós-graduação, e ainda trabalhou um ano no Chile. “Conhecer outras culturas me ajudou muito profissionalmente, não só por causa dos idiomas, como pela minha maneira de olhar o mundo. Quando você vai para outro país, são outros padrões, outras tendências, outro mercado, diferenças básicas que ajudam a construir um outro olhar”, conta a publicitária.

Segundo Carmen Cavalcanti, diretora da Rhaiz Soluções em Recursos Humanos, currículos como o de Juliana estão cada dia mais valorizados no mercado globalizado por causa do fluxo intenso de profissionais, troca de informações e aumento no número de negócios do Brasil com o exterior. “Essa interação mundial constante dialoga com profissionais que tenham uma formação cultural diversificada”, acredita. Porém, quem ainda não teve oportunidade de ir para o exterior, seja por meio de viagem ou por um intercâmbio, não precisa se preocupar. Conhecer o outro vai além da sala de embarque de um aeroporto. “Fazer um curso de línguas, ir a exposições sobre determinado país, pesquisar a geografia e história dos lugares ajuda bastante”, sugere Carmen. 

Quanto vale esse vale?

Com R$ 50, os moradores de Brasília poderiam ir a:

Shows
Neste fim de semana, há opções gratuitas e que chegam a custar R$ 500. O preço médio é de R$ 60

Cinema
Cada sessão custa de R$ 6 a R$ 24, dependendo do dia e do local escolhido

Teatro
O preços dos espetáculos deste fim de semana varia de R$ 10 a R$ 60

Dança
Preço médio de R$ 20 nos espetáculos em cartaz

Exposições
A maioria delas em Brasília é de graça. As pagas custam no máximo R$ 8

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