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Possíveis pacotes culturais

Gazeta do Povo - PR, 14/11/2009

Artistas contam o que fariam com os R$ 50 do Vale-Cultura, que deve ser implementado em 2010

A Comissão de Assuntos Eco­­nômicos do Senado Federal vai votar no início da próxima semana, em regime de “urgência ur­­gentíssima”, o projeto de Lei que cria o Vale-Cultura. É preciso que a “matéria” ainda passe por outras comissões e, acima de tudo, cabe ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancioná-la. Mas é praticamente certo, dizem parlamentares e funcionários do Ministério da Cultura, que o ano de 2010 comece com o Vale-Cultura implementado no Brasil.

O Vale, na prática, representará R$ 50 por mês na conta de todo trabalhador brasileiro com rendimento de até cinco salários mí­­nimos (R$ 2,325) por mês. Esse crédito, viabilizado por meio de um cartão magnético, poderá ser utilizado para comprar CDs, DVDs ou ingressos para espetáculos. O Vale-Cultura deve beneficiar 14 milhões de brasileiros e “despejará” R$ 7 bilhões por ano no mercado.

A Gazeta do Povo consultou cinco artistas para saber o que eles pensam a respeito do benefício e, em uma situação hipotética, o que eles comprariam com o Vale-Cultura.

Livros seriam prioridade para o diretor de teatro, e também músico, Flávio Stein e para a atriz e artista plástica Maureen Mi­­randa. “Eu compraria uma obra de literatura, porque livro é uma diversão que dura bastante tempo”, diz Maureen. Se a obra em questão custasse R$ 30, a artista investiria os R$ 20 restantes em ingressos de peças de teatro.

Mais conhecida pelo seu trabalho de atriz, Maureen também começou a dirigir espetáculos teatrais e tem a impressão de que o Vale-Cultura tende a facilitar o acesso do público às salas de teatro. Ela gostaria que o benefício já estivesse implementado, até porque a peça Os Três Espelhos, da qual assina o texto e a direção, retorna para nova temporada, a partir de 26 de novembro, no Mini-Guaíra.

“Se já estivesse valendo, acho que o Vale-Cultura iria levar mais público ao meu espetáculo. De toda forma, considero o projeto maravilhoso, porque vai proporcionar que muita gente que gosta, mas não tem dinheiro, possa ter acesso à cultura” afirma Mau­­reen.

Flávio Stein compraria dois livros pocket (R$ 20), um ingresso para espetáculo de teatro ou música (R$ 10) e um outro ingresso para o Museu Oscar Niemeyer (MON).

No entanto, Stein tem dúvidas a respeito do Vale-Cultura. “Por que o governo federal está ‘concedendo’ esse benefício?”, questiona. Ele argumenta que, ao mesmo tempo que o trabalhador, “e eleitor”, recebe um afago, os produtores culturais continuam enfrentando dificuldades. “É muito difícil viabilizar espetáculos. Por que o Ministro Juca Ferreira levou mais de um ano ‘modificando’ a Lei Rouanet e ainda não apresentou propostas concretas?”, reclama.

Para Stein, o Vale-Cultura, que vai entrar em funcionamento em 2010, ano eleitoral, não passa de uma tentativa de “caçar votos”.

Nem céu, nem inferno

O poeta Fernando Koproski também desconfia das intenções do governo ao implementar o Vale-Cultura em ano eleitoral. Mas, “até por intuição”, tende a acreditar que o Vale-Cultura será a ponte entre muitos brasileiros e os bens culturais.

Koproski usaria os R$ 50, em primeiro lugar, para, acompanhado de sua esposa, conferir uma peça de teatro de Alexandre França. “O sujeito não pode ser egoísta. Tem de levar a ‘patroa’ ao teatro”, diz. Com os R$ 30 disponíveis, compraria um livro do escritor Carlos Machado. “Usaria o Vale-Cultura para adquirir produtos culturais de artistas de Curitiba”, conta.

O guitarrista da banda Reles­­pública, Fábio Elias, anima-se diante da notícia da implementação do Vale-Cultura. Ele utilizaria os R$ 50 para assistir a um show de uma banda de rock (R$ 15), compraria um CD (R$ 20) e iria, durante os quatro domingos do mês, assistir a filmes na Cinemateca de Curitiba (aos domingos, o ingresso custa R$ 1).

O artista plástico Marcelo Scalzo (leia as sugestões no quadro ao lado) verbaliza o que a classe artística, de maneira geral, espera do Vale-Cultura: “Que o benefício viabilize ao público o acesso a espetáculos e, assim, que os artistas consigam realizar os seus projetos.”

Livro e Teatro: genial!

A atriz, diretora de teatro e artista plática Maureen Miranda (Foto 1) usa um único adjetivo para elogiar o Vale-Cultura: “genial”. Se viesse a ser contemplada com o benefício, ela compraria um livro de literatura e um ingresso para espetáculo de teatro. Maureen, que assina a direção, o cenário e o figurino do espetáculo Carrossel, que entra em cartaz dia 1 de dezembro no Espaço Cênico (ex-ACT), com a participação da atriz Letícia Sabatella, diz que o brasileiro gosta de cultura, e só não consome mais porque não tem dinheiro. “Viva o Vale-Cultura!”

Quanto Vale o Vale?

Flávio Stein (Foto 2) usaria os R$ 50 do Vale-Cultura para adquirir dois livros pocket, um ingresso para espetáculo de teatro ou música e ainda um ingresso para entrar no Museu Oscar Niemeyer (MON). O diretor de teatro e músico, também à frente de projetos culturais, analisa que o Vale-Cultura, a ser implementado em ano de eleição, não passa de uma tentativa de afagar o trabalhador e, ao mesmo tempo, seduzir esse sujeito, que é eleitor e “fisgar” o seu voto. “Quem garante que o dinheiro será ‘aplicado’ em cultura?”

Também vai estimular a produção

O artista plástico Marcelo Scalzo (Foto 3) tem a opinião de que o Vale-Cultura vai estimular tanto o consumo como a produção cultural. “O sujeito que gosta, e não tem condições, terá acesso e, com isso, os espetáculos de teatro, por exemplo, tendem a ter mais público”, diz. Scalzo, se viesse a ser beneficiado pelo Vale-Cultura, utilizaria os R$ 50 para comprar um ingresso de cinema (“no meio da semana, que custa em média R$ 7″), outro ingresso para uma peça de teatro (“no fim de semana custa R$ 10″), um livro pocket (“R$ 11″), um ingresso para o MON (“R$ 4″) e um DVD (“R$ 18, em um saldão”).

Peça do França, livro do Machado

O poeta Fernando Koproski (Foto 4) desconfia do Vale-Cultura, que entrará em vigor em ano eleitoral, mas torce para que o benefício se consolide. “A população gosta de programas culturais. É só ter dinheiro, que o cidadão vai ao teatro ou compra livros”, diz. Koproski conta que, se fosse utilizar os R$ 50 do Vale-Cultura, iria, em primeiro lugar, prestigiar, ao lado de sua esposa, alguma peça do dramaturgo Alexandre França. Com os R$ 30 restantes, compraria um livro do escritor Carlos Machado.

Vai suprir uma lacuna

Fábio Elias (Foto 5) elogia o Vale-Cultura. “Viabilizar ao povo o acesso a bens culturais é essencial para transformar o Brasil em um país decente”, diz o guitarrista e líder da banda Relespública. Ele aplicaria os R$ 50 em um ingresso para um show de rock (“que custa, em média, R$ 15″), em um CD (“de R$ 20″), em um livro pocket (“tem clássicos que custam apenas R$ 10″) e iria assistir, nos quatros domingos do mês, um filme na Cinemateca de Curitiba (“o ingresso dominical custa R$ 1″). “R$ 50 por mês dá, e sobra, para ficar informado e renovado culturalmente. O Vale-Cultura vai suprir a lacuna que o sistema educacional não consegue dar conta de preencher.”

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