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Ministro nega objetivo eleitoral e se diz desrespeitado até “no pinto”

O Globo, 26/11/2009

 

Juca Ferreira ataca imprensa e parlamentares por críticas a folheto da cultura

Alessandra Duarte

Um dia depois de chamar de “um erro” o fato de o Ministério da Cultura ter produzido e imprimido um panfleto intitulado Vota Cultura, no qual estimula eleitores a apoiarem parlamentares que trabalham por políticas da pasta, o ministro da Cultura, Juca Ferreira atacou a imprensa e negou caráter eleitoral no material.

- A imprensa tem que investigar antes de publicar – disse ele, após evento no BNDES, no Rio.

- O folder foi pelo Dia Nacional da Cultura, numa sessão solene da Câmara de Deputados, da frente parlamentar da cultura.

É a maior frente do Parlamento. Tem a frente da saúde, do meio ambiente, e tem a da cultura.

São articulações suprapartidárias.

Era um folder apresentando oito, nove projetos, como ValeCultura, reforma da Lei Rouanet, inclusão das empresas culturais no Supersimples. Não tem nada ilegítimo.

O folheto, que pede “Apoie o parlamentar do seu estado que vota pela cultura”, tem os nomes de 250 deputados, de diversos partidos, na contracapa.

“Acha que faria campanha para Rodrigo Maia?”

Sobre o fato de o Ministério da Cultura ter pago a impressão dos folhetos, Juca Ferreira afirmou ontem: – A Câmara não teria tempo de publicar, e a frente parlamentar da cultura pediu para a gente publicar, tem o ofício disso. Não tem nada ilegítimo, não tem nada partidário, não é nada de eleição. Vocês estão comendo mosca. O folheto tem Rodrigo Maia (presidente do DEM), por exemplo.

Você acha que vou fazer campanha para Rodrigo Maia? Olhe nos meus olhos e diga. O folheto tem oposição e situação, tem todos. Eles (os parlamentares) não querem dizer que estão com má vontade para votar o Vale-Cultura, que vai beneficiar 12 milhões de pessoas, estão achando incômodo votar. Então, não precisa fazer alarde; não quer votar, não vota. Alguém faz uma espuma e vocês vão atrás sem investigar.

Olha o folder.

Parecendo exaltado, o ministro foi perguntado se estaria emocionado, e respondeu: – Eu sou assim. Meu pinto, meu estômago, meu coração e meu cérebro são uma linha só.

Não sou um cara fragmentado.

Fui desrespeitado: pela imprensa, que reverberou sem investigar; e por dois ou três parlamentares. Eu trabalho suprapartidariamente. (…) O ato de ontem (terça-feira) foi um ato menor, e vocês acabam sendo o reverberador de uma coisa menor. Mas estou alegre.

Não acredito em pessoas que não tenham capacidade de se indignar com a injustiça. Vocês recebem para dizer mentira, mas eu, não.

Anteontem, em meio às críticas no Congresso, o mesmo Juca Ferreira dissera: – Concordo que não se crie um material com esse tipo de constrangimento para quem não votou em determinado projeto. Foi um erro. Os parlamentares vivem um momento de disputa, em véspera de ano eleitoral. Mas é importante discutir o ValeCultura, que é de interesse nacional.

No BNDES, ontem, o ministro participou do anúncio da ampliação do Procult, o programa de cultura do banco.

- As excelências (os parlamentares) ontem (anteontem) me criticaram porque apresentamos projetos de lei que estão tramitando no Congresso, e demandei apoio, para que apóiem a votação desses projetos: o Vale-Cultura, a inclusão das empresas culturais no Supersimples… – disse Juca Ferreira. – Eu tentei acalmar os que estavam inquietos. Se a gente for fazer o cálculo, aprovando agora o ValeCultura, ele só será de fato implementado em 2011. Porque, aprovado, tem que regulamentar.

Nota do Ministério diz: “é material de divulgação”

Em nota, o Ministério da Cultura disse que o folheto é “uma ação conjunta desenvolvida pela Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura, o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de cultura, o Ministério da Cultura e a Câmara dos Deputados, com o propósito de sensibilizar e mobilizar a sociedade civil em defesa da cultura Brasileira, com foco nos importantes projetos que ora tramitam no Congresso Nacional”.

“São infundadas as alegações de que o folder tenha características de material de propaganda eleitoral. Trata-se de material de divulgação, voltado para ato solene no Congresso Nacional em comemoração ao Dia Nacional da Cultura e do qual se destacam os seguintes aspectos”, diz a nota, que destaca que a lista publicada inclui parlamentares de vários partidos e que o material ” conclama os cidadãos a participar e contribuir para as discussões, sendo chamados a apoiar o parlamentar que vota pela cultura, o que, convenhamos, difere essencialmente de um convite para votar no parlamentar que apoia a cultura”.

PRAGA RESISTENTE

NÃO É simples coincidência a descoberta de que o ministro Juca Ferreira usou recursos públicos para promover parlamentares ocorrer ao mesmo tempo de outra revelação de idêntico teor: que Lulinha e amigos saborearam mais uma viagem de lazer nas asas do contribuinte, também o patrocinador das benevolências ministeriais.

OS DOIS fatos reafirmam a virulência do patrimonialismo, esta resistente e suprapartidária praga que assola a vida pública brasileira.

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