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“Censura é marca do autoritarismo”

O Estado de São Paulo, 06/12/2009

Para Konder, mordaça viceja onde não existe liberdade

Moacir Assunção

O jornalista e escritor Rodolfo Konder, de 71 anos, já completou quase 45 de “convivência” nem um pouco pacífica com a censura, desde que começou a trabalhar como repórter em 1965 na agência Reuters. Hoje diretor da seção paulista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), jamais deixa de se indignar com a mordaça, que considera uma marca inconfundível dos regimes autoritários.

“O vírus do autoritarismo está solto por aí. Aliás, nesse governo há setores que veem a imprensa com muita restrição, mas, no mundo inteiro, a censura viceja exatamente onde não há liberdade, casos de Cuba, Irã e Coreia do Norte, por exemplo”, disse o jornalista, que classificou a censura ao Estado, por liminar do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF), como “um absurdo.”

Desde 31 de julho, o Estado está proibido de publicar reportagens já apuradas sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que investigou o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Responsável pela liminar que pediu a mordaça, Fernando foi indiciado por vários crimes. O caso deve ser julgado na quarta-feira pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

Uma declaração recente do ministro da Cultura, Juca Ferreira, segundo a qual “os jornalistas são pagos para mentir”, ajuda a demonstrar, para Konder, que há um certo ranço no atual governo com a imprensa livre e a crítica. “No fundo, ele demonstrou que há uma tendência autoritária do governo, que fica incomodado com a imprensa”, observou Konder.

Questionado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) e Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o ministro se retratou em seguida e disse não ter intenção de generalizar a crítica a todos os profissionais.

AUTORITARISMO

Para Konder, que esteve preso com o também jornalista Wladimir Herzog – morto na tortura durante a ditadura militar -, a sociedade precisa ficar atenta a tentativas autoritárias de manietar a imprensa.

“Temos de discutir o assunto sempre e denunciar toda vez que se tentar oprimir a livre expressão do pensamento, em suas várias formas”, defendeu. Para ele, um dos papéis da ABI, entidade centenária do jornalismo, é exatamente o de lutar contra o arbítrio.

Durante sua trajetória, relata o jornalista e autor de 21 livros, a censura se manifestou pela primeira vez ainda de forma moderada no governo Castelo Branco, em 1965. “Depois, com a promulgação do AI-5, em 1968, e o endurecimento do regime militar, a mordaça também foi se tornando mais presente. Somente a democracia nos protege contra o poder”, disse.

 

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