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Elo perdido

Correio Braziliense - DF, Nahima Maciel, em 11/01/2010

Sem visibilidade e emperrado pela burocracia do governo, Museu Vivo da Memória Candanga é o único dedicado à história da capital. Reportagem abre série sobre os museus do DF

Dez quilômetros separam o Museu Vivo da Memória Candanga do Plano Piloto. São pouco mais de 10 minutos de carro, e o triplo de ônibus, se não houver trânsito. Distribuída por 184 mil metros quadrados de área verde, a instituição não conta com a facilidade do Museu Nacional Honestino Guimarães, localizado ao lado da Rodoviária. Distante da área central da cidade, exige do público disposição para ser visitado. Não está entre os mais antigos de Brasília, mas é o único dedicado à história da capital. Mesmo assim, recebe poucas visitas se comparado a seus irmãos localizados no Plano Piloto e de acesso privilegiado. O grande desafio do Museu Vivo da Memória Candanga está em atrair visitantes, tarefa margeada por dificuldades que vão da infraestrutura carente aos empecilhos administrativos capazes de emperrar o necessário dinamismo para movimentar o local.

Sede do Departamento de Patrimônio Histórico do Distrito Federal (Depha) até 1985 e museu desde 1990, o conjunto de 17 prédios, que um dia serviram de hospital aos habitantes da então Cidade Livre, não tem orçamento próprio e depende da Secretaria de Cultura para funcionar. A falta de pessoal complica o dia a dia da administração. Apenas oito funcionários estão encarregados dos 184 mil metros quadrados, um parque repleto de árvores frutíferas, cuja cerca é frequentemente cortada por moradores de uma invasão próxima. “Temos oito seguranças e não há ronda noturna”, explica Luciana Maya, diretora do museu. Além disso, o restauro dos prédios construídos em 1957 depende de uma burocracia que passa pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). “O terreno é do INSS e, por isso, não conseguimos entrar com lei de incentivo; a Secretaria de Cultura teria que ser titular do terreno”, lamenta Luciana. “O INSS só aceita negociar conosco a cessão definitiva do terreno em caso de permuta e, para isso, precisamos da Terracap”, completa Beto Sales, secretário adjunto de Cultura.

A longo prazo, a secretaria quer entregar o museu a uma Organização Social (OS), modelo que facilitaria a implementação de projetos independentes pelas leis de incentivo à Cultura “Toda essa rede de equipamentos da secretaria precisa ganhar autonomia que garanta condições de conquistar sua estabilidade. A tendência em todos os países é ter esses equipamentos geridos por uma parceria entre iniciativa pública e privada”, diz Sales. A experiência não será nova para o Museu Vivo. Entre 2003 e 2006, a instituição foi administrada pela Arte e Vida, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) dirigida pela ex-secretária de Cultura Luiza Dornas. “Propus a renovação desse convênio ao então novo secretario de Cultura, Silvestre Gorgulho. Eu queria ficar, mas a coisa foi demorando e desisti”, conta Luiza, que na época investiu em equipamentos e restauração dos prédios da instituição.

Por enquanto, a única forma de agilizar as ações no Museu Vivo é por meio da Sociedade de Amigos criada no ano passado. “A partir da sociedade, a gente vai poder captar”, comemora Luciana. “A ideia é promover e reunir fundos para criar no museu uma exposição que conte a história da cidade. Não temos um museu que conte da inauguração até hoje”, avisa Daiana Castilho, presidente da associação formada por mais de 20 pessoas. Voltado para a história dos primeiros tempos de Brasília, o Museu Vivo abriga também duas exposições de artesanato. Uma das coleções foi doada pela família do artesão Seu Pedro. A outra veio do acervo de artesanato do Museu de Arte de Brasília (MAB). Mesmo assim, não é o suficiente para atrair público.

A instituição recebeu 10 mil visitantes em 2009. Desse total, seis mil eram alunos de escolas públicas e privadas que participavam de visitas organizadas. O número é ínfimo, se comparado à visitação do Museu Nacional Honestino Guimarães, que chegou a 789 mil pessoas no mesmo ano. O que movimenta mesmo a instituição, localizada na entrada do Núcleo Bandeirante, são as oficinas de marcenaria, papel, tecelagem e cerâmica, recentemente incrementadas com novos equipamentos graças a uma emenda parlamentar e um convênio de R$ 450 mil com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Para Luciana, além da melhora na infraestrutura, o museu carece de divulgação. “As pessoas têm que entender melhor o que é um museu. Não é um lugar para guardar coisas. As pessoas precisam ter conhecimento do que o museu pode oferecer a elas.”

O número

10 mil

Número de visitantes do Museu Vivo da Memória Candanga em 2009

O que tem no museu

» Exposição de peças feitas por Seu Pedro, artesão que construía esculturas de bichos a partir do formato dos galhos encontrados no cerrado
» Tradição e Renovação – Novos caminhos: mostra permanente de artesanato renovável
» Exposição histórica com fotografias de Mário Fontenelle , considerado pioneiro nas imagens de Brasília, e reconstituições de como era a vida na capital

O que falta no museu

» Dotação orçamentária
» Pessoal para manutenção
» Cessão definitiva do terreno

Eu acho …

“Acho que aquele lugar, se tivesse um bom restaurante, onde as pessoas pudessem ir e passear, seria uma coisa boa. A gente tem que ser pragmático mesmo, a gente quer que as pessoas se interessem pelo que é patrimônio delas.”

Marília Panitz, dirigiu o Museu Vivo da Memória Candanga aos nos 1990

“O museu tem um problema de manutenção. As casas, por serem de madeira, precisam de constante manutenção e a secretaria não consegue fazer isso a contento. Mas agora o museu passa por boa fase, tem uma diretoria que não fica esperando o estado. O problema é a falta de continuidade da política. Muda o governo, muda tudo. Mas é um espaço interessantíssimo que as pessoas deviam frequentar mais.”

José Nicodemus, oficineiro na instituição desde 1988

“Uma das coisas importantes é manter as oficinas funcionando. E o museu tem uma parte da história de Brasília muito bem feita, com estrutura museológica muito boa. É um lugar muito adequado para manifestações culturais da cidade, coisas de raiz. Para levar gente, tem que ser assim. Você torna conhecido quando leva grupos de música, dança, coisas que tenham a ver com a cidade.”

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