O Brasil perdeu ontem um dos cidadãos mais comprometidos com um projeto cultural de país. Um homem exemplar que nos mostrou de forma generosa e decidida os caminhos que devemos seguir.
Sua dedicação á cultura foi algo perene e que nos deixa um legado como nenhum outro, afirmando o ideal dos homens que olham para as gerações futuras e semeiam os frutos que os alimentarão a alma de amanhã. Foi alguém tão memorável quanto soube se unir aos homens que escreveram e documentaram a história deste país, erguendo a partir de sua própria casa e de seu próprio trabalho o maior acervo de documentos sobre este território que chamamos de Brasil. O apreço de José Mindlin ao humanismo e seu amor sem concessões à cultura, especialmente, aos livros, o fez conhecido em todo o mundo como o bibliófilo brasileiro por excelência.
Foi também, como empresário e homem público, um defensor incansável da democracia, durante o período da ditadura militar, sendo que na sua militância empresarial sempre teve a frente o comprometimento com a inovação do país em vínculo constante com a universidade, o conhecimento e a ética nos negócios. A vida do nosso querido Mindlin deve ser saudada como uma grande criação literária, uma realidade que transpõe o mundo mítico das ficções e será narrada pelos próprios livros como um personagem de grandes contornos e de feições eternas.
Se Mindlin nos deixou, sua obra o torna mais vivo entre nós, agora que seus 80 anos de empreendimento pessoal na construção da Biblioteca Brasiliana, hoje considerada a mais importante coleção do gênero, está tornando-se uma instituição e um equipamento públicos. Ele e Guita Mindlin, sua esposa, doaram o acervo à Universidade de São Paulo (USP) e, com o apoio do Ministério da Cultura, construíram o edifício que hoje já se encontra em pé e em breve será inaugurado, infelizmente sem que seus olhos os veja pronto. O Ministério, reafirma aqui, em nome da nação, seu compromisso que se soma ao de seus familiares no cumprimento do desejo maior desta pessoa maravilhosa. Os 40 mil volumes, entre obras de literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos, iconografia e livros de artistas (gravuras) estarão digitalizados e acessíveis a todos os brasileiros que vivem em qualquer parte do mundo.
Mindlin costumava dizer que não fazia nada sem alegria. Sempre sonhou que o Brasil se tornasse um país de leitores. Sua avidez pela leitura e sua paixão pelos livros deu passos significativos nesse sentido. Sua alegria pela vida e sua generosidade vão fazer falta.
Juca Ferreira
Ministro de Estado da Cultura
Participação do Leitor
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