Em 2002, no 35º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a exibição do curta-metragem Mira Mura, dentro da mostra 16mm, esquentou um debate que já pairava no ar: a questão das cotas para alunos negros no vestibular da Universidade de Brasília (UnB). A perplexidade de uma estudante negra que não encontra identificação junto aos alunos da instituição é narrada de um ponto de vista pessoal. “Era uma perspectiva social, mas passa pelo particular, a visão de um indivíduo”, analisa Camila Machado, diretora do curta, que terá outra exibição nesta semana, na programação do Cineclube Mostra Taguatinga.
Formatado como ciclo de debates sobre cinema e contemporaneidade, o encontro do cineclube funciona como curso de extensão do Fórum Permanente de Professores do Cespe (as inscrições já estão encerradas). Porém, as sessões aos sábados, às 14h30, no Teatro da Praça, no centro de Taguatinga, são sempre abertas ao público. Desta vez, o tema será Viagem à Itália: a recepção do neorrealismo pelo cinema brasileiro, com palestra do professor da UnB Alex Sandro Calheiros de Moura.
Em todos os encontros, a curadora e cineasta Nôga Ribeiro escolhe vídeos do acervo de 11 anos da Mostra Taguatinga para serem exibidos. “A gente tenta selecionar filmes que dialoguem com os temas. Esse diálogo nem sempre é muito direto. Não vamos exibir filmes do neorrealismo. A preocupação maior é com a imagem, com a poética”, explica Nôga. “Acho que existe um diálogo com o neorrealismo, sim. A questão do espaço, das locações. Mira Mura é um filme feito por não atores, com uma luz mais dura. A fotografia tem forte contraste entre o preto e o branco. Era um contraste da questão negra”, compara a diretora Camila Machado.
A iniciativa de Taguatinga faz parte de um movimento de fortalecimento dos cineclubes no Brasil. As organizações, iniciadas espontaneamente, foram responsáveis por boa parte da resistência contra a censura imposta pela ditadura militar durante os anos de chumbo. Mas perdeu força ao longo das décadas de 1980 e 1990.
“Essa retomada vem acontecendo de forma espontânea, após a redemocratização do país, e tem como parceiros o Fórum Nacional de Cineclubes e o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC). Algumas políticas de incentivo do Ministério da Cultura têm ajudado bastante também”, aponta Nôga. Uma das iniciativas do Cineclube Mostra Taguatinga deste ano retoma uma ação comum nos anos 1970: o lançamento nacional de filmes em circuitos de cineclube. Filme pirata, do taguatinguense William Allves, que também coordena a mostra, deverá ser lançado ao longo de 2010.
CINECLUBE MOSTRA TAGUATINGA
Sábado, às 14h30, no Teatro da Praça (CNB 1, Centro; 3352-0576), exibição dos curtas Axexê (documentário, 12min), de Marcelo Peixoto; Essa terra (ficção, 27min), de Devanilson Álvares de Souza; Flor madrugada (ficção, 5min), de Nôga Ribeiro; Guapira – Onde começa um vale (documentário,15min), do coletivo Catadores de Histórias; Mais um encontro de família (documentário, 15min), de Felipe Peres Calheiros; Mira Mura (ficção, 10min), de Camila Machado; e Pilões – Os jovens da reforma agrária (documentário, 10min), de Vinicius Lima Nunes. Entrada franca. Não recomendado para maiores de 14 anos.
Participação do Leitor
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