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O ministro que não teme a globalização

Valor Econômico - SP, Caderno Cultura, por Paulo Totti, em 05/03/2010

À mesa com o Valor – Juca Ferreira: Diante de sushis, sashimis e caipirinha de vodca com caju de um restaurante japonês da Bahia, o ministro diz que a cultura brasileira é de boa cepa e não precisa de proteção.

Mercado Modelo, Elevador Lacerda, Segundo Distrito Naval, Forte de São Marcelo, Plano Inclinado, monumento de Mário Cravo… e o Soho. Sim, Salvador tem nova atração turística desde 2008: o restaurante Soho, na avenida do Contorno, bairro do Comércio, Cidade Baixa. “É o melhor japonês do Brasil”, diz Juca Ferreira, o baiano que sucedeu ao seu conterrâneo Gilberto Gil no Ministério da Cultura.

O ministro acaba de chegar de Garapuá, isolada praia de pescadores na Ilha de Tinharé, 60 quilômetros ao sul de Salvador, e é sua última noite de férias na Bahia. No Soho, o piso de acrílico transparente, suspenso sobre o píer e vários metros avançado sobre a baía de Todos-os-Santos, permite que se veja, nadando entre as rochas, os peixes que amanhã estarão em sua mesa na forma de sushis e sashimis.

O lugar é bonito, sem dúvida – “à luz do sol esta beleza seria superlativa”, comenta o fotógrafo – e a comida deve ser boa, pois o ministro informa que a classificação de melhor do Brasil lhe foi transmitida por um dono de restaurante japonês do centro do Rio. Mas por que um baiano, em plena Bahia, escolheria um restaurante japonês para falar de si e do ministério que dirige?

Juca Ferreira tem duas explicações. A primeira é simples: ele gosta de comida japonesa. A segunda é mais complexa, e, se a considerarem prolixa, relevem – o ministro é baiano. “Até o século XIX, tínhamos uma matriz básica: portugueses, africanos e indígenas. Hoje, o Brasil talvez seja o maior laboratório multiétnico e multicultural do mundo. Há aqui mais libaneses que no Líbano, a maior colônia japonesa do mundo. E coreanos. Etc. Visitei uma região colonizada por eslavos, ucranianos e poloneses no Paraná. Mostraram-me uma lista imensa de pessoas de lá que contribuíram para a cultura do país, a começar por Paulo Leminski, o poeta [1944-1989], filho de pai polonês e mãe negra, mestiçagem que comprova o que estou falando.

Esse amálgama de culturas deu ao Brasil a capacidade de incorporar o que acha positivo e expelir o que é ruim. Isso os antropofágicos de Mário e Oswald de Andrade já tinham percebido. Essa complexidade se acelerou. A comida japonesa é um pouco isso. Nós a absorvemos e estamos agregando um toque brasileiro, já que os cozinheiros são todos brasileiros. Gostar de comida japonesa já é coisa natural. Não pense que na Bahia a gente tem obrigação de cair no dendê. O dendê é para sexta-feira, com moqueca, siri, arraia. Ninguém come todo dia.”

Casado – “diria que estou no terceiro casamento” -, Juca tem um casal de filhos, uma de 23 e outro de 9 anos. Baianos e moradores de Brasília, só o pequeno tem alguma resistência a uma comida mais saudável. “Fui macrobiótico durante um tempo, até natureba. Hoje sou eclético. Lá em casa é arroz integral, milho verde, salada, cereais.”

- Como ministro, então, o sr. não tem prevenção contra a globalização?

- Não sinto necessidade de proteger a cultura brasileira da globalização. A gente já nasceu preparado para vivenciar essa experiência, somos fruto da primeira etapa da mundialização, que envolveu as grandes navegações, as descobertas portuguesas. A cultura brasileira é de boa cepa.

- A comida fica universal e perde o gosto de sua aldeia. Isso não ocorre na Bahia?

- Acho que caiu um pouco a qualidade da comida baiana nos nossos restaurantes. Já fomos melhores nisso. Como acontece em todos lugares turísticos, o mercado pode estar adaptando os gostos. Há baianas na cozinha e turistas no outro lado do balcão.

Foi assim, “sociologando” sobre comida brasileira e frustrados por faltarem o engenho e a arte de Gilberto Freyre para prosseguir e aprofundar o tema, que ministro da Cultura, seu assessor de imprensa, repórter e fotógrafo se reuniram numa noite de sexta-feira de Lua cheia, na varanda do Soho, para mais este “À Mesa com o Valor”.

O cardápio do Soho é robusto e o ministro parece conhecer o significado de palavras estranhas como okonomyaki (torta de repolho, com recheio de carne de porco, de frango ou de peixe), robata (espetinho com grelhados de carne, de peixe ou de legumes – o de aspargos é delicioso), teppan yaki (grelhados de camarão, polvo, lula, carnes, bacalhau, enchova e vegetais, que vêm à mesa na chapa), yakimeshi (risoto japonês com legumes picados), yppin-ryori (que poderia ser traduzido como “outras iguarias”, dentre as quais o tofu). Na hora da comandar, entretanto, o ministro é austero e sugere o suficiente para quatro pessoas, sem grandes pirotecnias: o combinado tradicional (60 peças) de sushis e sashimis, antecedido por Soho maki, delicados enroladinhos de camarão. Para beber: rósca de caju – uma forma baiana de chamar a caipirinha de vodca, com bolinhas de caju em lugar do limão. Juca comenta e adverte:

- É muito saborosa, mas às vezes provoca pigarro. O caju tem isso, pode ressecar a garganta, o tanino trava.
Vêm quatro róscas à mesa. O repórter acha a sua refrescante. E repete.

O sucessor de Gilberto Gil nasceu em Salvador e se chama João Luiz Silva Ferreira, mas, desde os tempos de política estudantil, é conhecido como Juca Ferreira. No mesmo dia 13 de dezembro de 1968 em que o Brasil tomava conhecimento do Ato Institucional nº 5, o segundo grande atentado militar contra os direitos civis – o primeiro foi o próprio golpe de Estado em 1º de abril de 1964 -, Juca era eleito presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundários (Ubes). Em 1970, já no segundo ano de história da Universidade Federal da Bahia e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) – dissidência do PCB, que carregava no nome uma homenagem a Che Guevara, dado como morto na Bolívia em 8 de outubro de 1967 [na verdade, a execução foi no dia 9] -, acabou preso em Salvador e, ao sair da prisão, mergulhou na clandestinidade por um ano e meio. Exilou-se depois no Chile e com o golpe do general Augusto Pinochet buscou novo asilo.

- Fiquei sete anos na Suécia. Sabe o que estudei lá? Língua portuguesa e cultura brasileira, além de sociologia.

- Tinha esses cursos lá?

- Eu pensava: se o exílio demorar muito, vou ser professor de português por aqui. Na Suécia o acolhimento de exilados é completo. Logo que chega, faz curso obrigatório de língua sueca, lhe dão um emprego e a possibilidade de estudar. Entre meus professores havia portugueses e brasileiros. Quando vi que a anistia ia sair, fui para Paris, onde aceitaram meus créditos, e terminei a sociologia na Sorbonne.

De volta ao Brasil, começa a militar no MDB, depois PMDB, e é secretário do Meio Ambiente no governo da prefeita Lídice da Mata (PSDB, 1993-1997).

- Conheci Gil em 1988, quando apoiei a candidatura dele para prefeito pelo PMDB. Mas o partido preferiu um radialista. Nada contra radialistas, mas foi péssimo prefeito.

- O nome, por favor.

- Fernando José.

Gil se conforma em ser vereador e é eleito com o maior número de votos de Salvador (exatos 11.111). Juca, mais tarde, acaba no Partido Verde, em cuja legenda também se elege vereador. Estava no segundo mandato em 2003, quando Gilberto Gil foi escolhido ministro da Cultura e o levou para a secretaria executiva, a segunda na hierarquia do ministério. Gil é poeta, formado em administração de empresas. O marxista Juca não diferencia si bemóis e sustenidos. Mas, além da amizade e do pequeno brinco de prata na orelha direita, identificam-nos a homogeneidade do discurso. Dir-se-ia que, ao deixá-lo como sucessor natural de Gil, Lula queria preservar a política e manter a maneira de explicá-la.

- Qual é o legado do governo Lula para a cultura brasileira?

- Lula deixa um Ministério da Cultura concebido na grandeza e na dimensão da cultura brasileira. Começamos a tratar a cultura como uma necessidade básica, como comida, moradia, saúde, ambiente saudável. O que diferencia o ser humano de todos os outros animais é essa necessidade de simbolização, criação, abstração. Numa entrevista ao “Le Monde” me ocorreu uma cena de Jean-Luc Godard em que a filha pergunta: “Mãe, o que é linguagem?” E a mãe diz: “É a casa onde a gente mora”.

- Cultura seria isso também?

- Sim… Permite estarmos aqui, eu me compreender, compreender você, compreender o mundo, recriar o mundo. A questão da cultura nunca foi tratada no Brasil com essa dimensão. Esse é o legado de Lula.

- Como é que se consegue o equilíbrio entre cultura de elite e cultura popular? Música lírica e literatura de cordel, por exemplo. Elas não podem ser abandonadas…

- Não, não podem. Pelo contrário. Mas o Brasil tem uma diversidade cultural que se manifesta de várias maneiras. Todas se integram, se inter-relacionando, e uma se alimenta da outra. Não há cultura popular pura, sem influência da cultura de elite. E toda arte erudita no mundo tem raiz popular.

- Qual é o orçamento do seu ministério e quantos funcionários tem?

- São perto de 2 mil funcionários; cresceu um pouco ante o governo anterior. Mas o ministério cresceu muito mais. Além daquela transformação de conceito e visão da cultura, conseguimos concretamente elevar o orçamento de pouco mais de R$ 380 milhões para R$ 2,2 bilhões em 2010. É um grande avanço.

O fotógrafo pede uma mudança na posição dos comensais. Juca estava contra a escuridão da noite e passa a ter às suas costas o iluminado interior do restaurante. “Vamos pedir ao prefeito que ilumine o Elevador Lacerda”, diz.

- A propósito, como são suas relações com o prefeito João Henrique Carneiro, que era do PDT, passou para o PMDB e está brigado com o governador Jacques Wagner, do PT?

- Já foram melhores. Salvador precisa de uma administração especial, não pode ser vista sob um exclusivo ângulo de turismo, senão vira simplesmente um balneário, fica culturalmente desfigurada, feia, e o próprio turismo é prejudicado. A economia da cultura requer uma abordagem mais ampla, que envolva todos os setores da vida da cidade. Nossos gestores não têm noção de um outro problema. Com crescimento desordenado, e ao contrário do que aconteceu no Rio, que liberou os morros para as camadas mais pobres, aqui as cumeeiras da cidade foram ocupadas pelos mais privilegiados. Os candomblés se estabeleceram exatamente nos vales. Mas depois se descobriu que as vias de circulação deviam de ser pelos vales e aí começou o caos.

- Eis aí um discurso de candidato a prefeito. Você está com 61 anos, qual é o seu futuro?

-Rapaz, é difícil de responder. Toda mãe de santo que joga búzios para mim diz que sou de Oxalá e de um Oxóssi que não corre atrás da caça, apesar de Oxóssi ser um orixá caçador. Eu e a caça nos cruzamos com frequência, mas só acidentalmente. Não sou de fazer planos, sei que eles não se realizam. Ia ser arquiteto e cineasta, mas a política me sugou de forma tão violenta que fui em outra direção. Confesso que só tenho uma vontade política: ser prefeito de Salvador. Mas não mexi uma palha para isso. Trabalho 14 horas por dia. É difícil, não dá tempo.
A rotina de ministro em Brasília permite poucas articulações políticas e quase não o deixa sequer acompanhar o movimento cultural do país. Quando era vice-ministro, frequentava os teatros de Brasília e ia a alguns shows e estreias de filmes no Rio e em São Paulo. Agora, nem mais faz ginástica na quadra onde mora. Em Salvador, nestas curtas férias, visitou a exposição de modernos artistas da República do Benim. “É das melhores exposições no Brasil dos últimos anos”, afirma.

- Você falou em candomblé como parte da cultura da gente pobre da Bahia. Você tem relação com o candomblé?

- Como secretário do Meio Ambiente, criei um projeto chamado O Jardim das Folhas Sagradas que reconhecia a importância de usar o candomblé, uma matriz cultural absolutamente enraizada na cidade, para gerar uma consciência homem-natureza. Se você for à porta do Gantois tem meu nome lá numa placa. O mesmo acontece no Bate-Folha, que é um candomblé importante. No final do Engenho Velho Bogum, está lá meu nome também.

- Um político que conhecia bem isso era Antônio Carlos Magalhães, não?

- Ele conhecia, sabia dessa grandeza toda e aproveitava. Não ia além disso. Por causa do Antônio Carlos, a Bahia foi o último Estado a se redemocratizar. Até a eleição de Jacques Wagner, isso era um enclave autoritário.

- Qual é sua religião? Você dá importância ao jogo de búzios.

- Minha formação é católica. Meu pai era engenheiro, construía estradas pelo Nordeste. A estrada ia avançando e a família ia atrás. Morei também no Rio, na Ilha de Paquetá, no Engenho Novo, na Tijuca. Somos cinco irmãos homens, eu sou do meio e branquelo, tenho irmãos morenos, um de cabelo crespo. Meu pai era mestiço, tipo Dorival Caymmi. Fui interno de um colégio católico na Bahia. Em Paquetá, frequentei a escola que minha avó dirigia para filhos de favelados e estive no Colégio Militar de Salvador. A partir daí fiquei menos religioso… Gosto muito desta folha. É áspera, mas tem sabor refrescante. Não sei o nome…

O ministro interrompeu-se para elogiar uma folhinha cor-de-rosa que embeleza o combinado de sushis e sashimis.

-O nome dela é shissô – informa o garçom, baiano da Chapada Diamantina.

Juca Ferreira prossegue: “Já me aproximei de religiões orientais, especialmente os tântricos. Agora sou plural e prefiro dizer como Caetano: ‘Quem é ateu e viu milagres como eu/ Sabe que os deuses sem Deus/ Não cessam de brotar nem cansam de esperar”.

- Influências políticas na família?

- Minha mãe era professora, filha de portugueses. Aliás, meu avô materno tinha duas famílias; tenho primos desse segundo ramo em Itaparica. Meu pai era de esquerda, gostava de Leonel Brizola, do João Goulart. Ele me deu o livro “História Econômica do Brasil”, de Caio Prado Júnior, e me disse: “Lê este livro. Caio Prado é diferente do Nelson Werneck Sodré [general do Exército e historiador ligado ao PCB], este tem uma visão ideológica”. Pela primeira vez ouvia a palavra ideologia ligada a algo que pode não corresponder à realidade.

- E a nova Lei Rouanet vai ser a Lei Juca?

- Estamos chamando de nova lei de fomento e incentivo à cultura. Incorporamos 2 mil contribuições recolhidas na consulta pública. Batizá-la com algum nome seria desprezar quem deu essa contribuição. Já nos acusaram de pretender estatizar isso, estatizar aquilo, controlar a imprensa, o cinema, todas as artes. Poderíamos fazê-lo com uma penada, a lei nos dá esse poder. Mas estamos sempre consultando a sociedade e nenhuma proposta nossa é autoritária… Garçom, meu amigo, põe um creminho no café, senão o estômago reclama. Para encerrar, um licor?

- Pode ser. Um cointreau.

- Dizem que o licor dá vontade de fumar. Mas não fumo nem nunca fumei, nem mesmo quando estava na prisão…

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