Bienal de São Paulo abre espaço – agora de forma consentida – para a pichação dividindo a opinião pública e apimentando a discussão sobre o conceito de arte
Carolina Leão cleao@jc.com.br
Especial para o JC
Desde que as vanguardas passaram a ter sua potência transgressora assimilada às academias tradicionais, um fantasma começou a rondar a discussão sobre arte. Toda subversão poderá ser domesticada pelas instituições oficiais? O debate é antigo, mas não se esgota. Na última quinta-feira o curador Moacir dos Anjos apimentou a questão ao anunciar a participação de pichadores na 29ª Bienal de São Paulo, que acontece em setembro na capital paulista. O convite surgiu após encontros realizados entre a comissão crítica do órgão e artistas de rua, responsáveis, em 2008, por uma das maiores polêmicas da história da instituição – quando o segundo andar do pavilhão da mostra, apelidada de Bienal do Vazio, foi invadido e pichado. O anúncio veio na mesma semana em que a Prefeitura do Rio de Janeiro confirmou pichações na estátua do Cristo Redentor.
A notícia mais uma vez dividiu a opinião pública e traz questionamentos sobre o conceito de arte e sua dimensão política – este último ponto é o tom da próxima Bienal (que vem com a missão de recuperar o status crítico de sua trajetória). Em outubro de 2008 a invasão do pavilhão vazio da Bienal virou caso de polícia quando 50 pichadores driblaram a segurança e, entre socos e pontapés, picharam vidros e paredes. O curador Ivo Mesquita condenou o ato e tratou os invasores como vândalos. Artistas e intelectuais saíram em defesa dos pichadores, que tiveram apoio ainda de membros de organizações de direitos humanos. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, também saiu em defesa.
A teórica da arte Maria do Carmo Nino, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), lembra de um ponto importante: só há pichação se houver proibição. A presença de pichadores na Bienal não será pela performance dos artistas de rua, no entanto.
A mostra investe no debate político exibindo vídeos, fotos e discussões com pesquisadores e especialistas. “Trazer a pichação para a Bienal seria subverter sua dimensão contestatória. O que vai haver é uma ilustração do picho”, coloca Maria do Carmo. A pesquisadora parabeniza a iniciativa da curadoria que, segundo ela, traz a questão política como foco, mas lembra: “Há um risco grande. Ela se arrisca a passar pelo julgamento sumário, que pode colocá-la como legitimador do picho”, argumenta.
O sociólogo Paulo Marcondes Soares, também professor da UFPE, lembra que quem legitima o que é arte são as instituições políticas e culturais, a exemplo das academias, universidades e grandes galerias. Associada à marginalidade e ao vandalismo, envolvendo questionamentos sobre cidadania e inclusão social, a pichação vem aos poucos passando por um processo de “aceitamento” como arte, com letra minúscula, sempre.
O pernambucano Galo de Souza, artista de rua, é um dos que reivindicam o status da pichação como expressão estética. “A pichação no BRASIL é uma referência global. Quase todos os países utilizam a fonte de São Paulo. Quem estuda design sabe que sua iconografia é muito forte”, defende. Para ele, no entanto, a cultura da pichação é generalizada como discussão a ser colocada apenas como um problema social. “É uma arte tanto quanto outra”, diz. Galo afirma que a pichação não precisa da Bienal. “Mas é importante que ela (a arte de rua) reflita sobre sua história.”
Marcondes compartilha da opinião do grafiteiro. “É um debate que a esfera artística não reconhece. E isso é também uma questão política. O papel do curador é totalmente coerente. Nos leva a pensar e refletir.” O sociólogo aponta ainda para a ambivalência do tema quando se analisa a recuperação domesticada de intervenções urbanas como o grafite, linguagem para onde vêm se deslocando antigos pichadores “É uma rebeldia tolerada, consentida”, coloca.
Essa contradição, explica o curador Moacir dos Anjos, será um problema que a 29ª Bienal terá que lidar. “Pois, se o que faz o picho ser arte é justamente o fato dele desconcertar nossos sentidos e nos fazer admitir, mesmo quando estamos no conforto de nossos carros ou na janela de um apartamento alto, que existem outros modos de entender e de inventar o mundo. O que acontece se o picho é trazido para o ambiente controlado, conhecido e decodificado do chamado campo da arte? Ele mantém sua potência ou se torna mera ilustração ou lembrança de si mesma?”, questiona Moacir enfatizando a grafia do picho com x,
tal como é utilizado na gíria popular.
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