Darcy Ribeiro nos emociona, sobretudo, pelo que tinha de sonhador e realizador, pela clareza e força com que defendia suas ideias. A simples menção de seu nome, aliás, já nos emociona. Darcy tornou-se um ícone do Brasil que idealizamos, do Brasil que queremos. Um orgulho para todos os brasileiros. Seus feitos continuam a nos emitir sinais em várias direções e a nos apontar para muitos horizontes. Além de político, educador, teórico e romancista, Darcy foi um militante da vida, um inventor deste país. A sua vida e obra é uma aposta no Brasil. Faz uma síntese de todos nós.
Ajudar a edificar um Memorial Darcy Ribeiro é uma aposta no Brasil que ele idealizou. Não poderia haver melhor lugar. Na UnB que ele pensou, e ajudou a fundar. O que aqui acontece, com esse Memorial, é uma forma de este Ministério se manifestar sobre Darcy. Nosso apoio a essa construção traz, em si, uma manifestação sobre a importância dele. As palavras que eu posso dizer aqui tem apenas a intenção de enfatizar essa manifestação.
O Memorial será erguido dentro da UnB, casa de Darcy, instituição que expressa a sua militância por uma revolução na educação brasileira. Por uma inovação pedagógica, baseada em proposta moderna e livre, num compromisso com a democratização do ensino. Neste ano comemoramos o cinquentenário de Brasília. Dentro de mais 2 anos, comemoraremos o cinquentenário da UnB. Ainda nesta semana, aqui em Brasília, inaugura-se uma exposição sobre Lucio Costa, a quem saudamos pelo seu empenho na construção do País. Aqui, em Darcy, temos mais outro caso de um desses nossos brasileiros ativos e firmes, enérgicos e incansáveis. Temos aqui conosco Lelé, que presenciou e participou do surgimento dessa universidade, a UnB. E que, para nós, representa esse mesmo espírito. Essa universidade, da qual Darcy foi o primeiro reitor, nunca deixará de ser símbolo da porção intelectual e educacional dos ideais que marcam a vida destes homens.
O encontro entre Darcy e Brasília não foi causal. A vida de Darcy já era marcada por seu interesse pelo interior do país, por esse deslocamento “rumo ao oeste”. É importante notar o quanto uma série de comemorações e ações que se vê no Brasil hoje são marcadas por uma vontade e um sentimento de lembrar e de homenagear-se uma geração de homens que acreditou na importância desse movimento de “entrada” do país para dentro de si. É compreensível que seja assim. Esse reconhecimento é importante e sintomático. É um sintoma bem-vindo de que venceu entre nós a ideia de um país integrado e plural.
Darcy era um apaixonado por todos “os Brasis” que a sua antropologia nos fez conhecer. E é essa paixão que está expressa, por sua vez, no belíssimo acervo de cultura que este Memorial abrigará, acervo de toda uma vida de dedicação aos mais nobres ideais republicanos.
Abrigado nesse belíssimo prédio, que muito bem conjuga uma maloca indígena com uma nave espacial, como disse Lelé, unindo presente, passado e futuro num só espaço, esse acervo de Darcy verá ratificado o seu enorme potencial educativo e formativo, sua vocação intrínseca, portanto, de acervo cultural formado por um homem tão comprometido com as questões do ensino, da educação e da formação do brasileiro. Tão comprometido com a pesquisa. Tão comprometido com o Brasil – na sua pluralidade.
O nosso Darcy reunia um monte de virtudes brasileiras. Colado ao seu nome está um Brasil mestiço e associado a um novo processo civilizatório. Com ele aprendemos a nos enxergar no mundo e a ter orgulho do que somos.
Darcy Ribeiro deixou-nos, antes de falecer, o apaixonante volume O Povo Brasileiro (1995), ao final do qual conclui:
“Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ‘ninguendade’. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na dura busca de seu destino. Olhando-os, ouvindo-os, é fácil perceber que são, de fato, uma nova romanidade, uma romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro. (…) Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à conveniência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.”
Juca Ferreira
Ministro de Estado da Cultura
Participação do Leitor
Espaço reservado exclusivamente para comentários acerca da matéria ou publicação veiculada nesta página. Solicitação de informações ou dúvidas devem ser encaminhadas por meio do Fale com o Ministério; reclamações ou denúncias devem ser dirigidas para Ouvidoria.