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Discurso do ministro da Cultura, Juca Ferreira, na cerimônia de abertura da exposição Lucio Costa – Arquiteto, no Museu Nacional da República, em Brasilia

BRASÍLIA, 13 DE MAIO DE 2010

Boa noite a todos!

É uma honra para o Ministério da Cultura estar aqui, participando dessa mais do que justa homenagem. É uma honra e um prazer pessoal, para mim, estar aqui.

Eu pertenço a uma geração que viu Brasília surgir. Quando Brasília foi inaugurada, eu tinha dez anos de idade. Eu evidentemente não tomei parte na coisa, e só vim a conhecer esta cidade muitos anos depois. Mas, como eu disse, entre as minhas lembranças de infância e adolescência, tenho, como muitos, a memória da atmosfera na qual se debatia a transferência da capital do País para o seu interior. Infelizmente, poucos anos depois de concluída, a cidade – com a vida política do País – foi tomada por representantes de um governo impopular, que foi progressivamente se afastando da população e violando as nossas liberdades civis e democráticas mais fundamentais.

Tornou-se comum as pessoas dizerem: “Ah, Brasília foi feita para afastar governo e povo, para que se criasse uma distância intransponível entre a classe política e os cidadãos do Brasil”. Eu acho que isso não tem cabimento. Quem conhece o pensamento e a obra de Lucio Costa sabe que isso não tem sentido. De maneira que a Brasília de hoje, que entrou definitivamente no mapa brasileiro, é uma cidade que faz enfim justiça aos ideais dos seus inventores. Homens que pensaram em uma capital “para todos os brasileiros”, como se dizia. Lucio Costa concebeu esta cidade – e disse isso algumas vezes – para ser a expressão arquitetônica de nosso amadurecimento. Pensou uma Praça vazia – a Praça dos Três Poderes – projetada para ser usada e enchida pelos cidadãos, pelas pessoas, coletivos dos quais emana o poder republicano verdadeiro.

Para mim, é uma honra estar aqui, como Ministro, também porque a exposição está belíssima. E faz jus a uma ideia na qual eu tenho insistido – escrevi sobre isso hoje, inclusive, num artigo para o Correio Braziliense: a ideia de que a importância de Lucio Costa, para o Ministério da Cultura e para a cultura brasileira, está no seu exemplo de versatilidade e de multiplicidade. Lucio Costa foi um homem de muitos lugares – eu usei essa imagem no meu texto. E com isso o que eu quero é dizer que -  como muitos de vocês sabem bem – ele foi um arquiteto, um urbanista, um desenhista, um pintor, um escritor de pequenos e grandes ensaios, um frasista de ótima qualidade, um professor, um reformador do ensino, um gestor público, um administrador, um historiador, um arqueólogo… Um político… Um homem cuja inteligência e cuja curiosidade parecia não ter limites… Até roteiros de cinema, Lucio Costa fez – os estudiosos de sua obra sabem disso.

De maneira que ao meu ver, essa inteligência não tinha limites e talvez só não tenha sido maior do que o seu compromisso com as coisas do seu país, do nosso país, com as coisas do Brasil, com o desenvolvimento cultural, social, tecnológico e econômico do Brasil. Um país no qual ele acreditava muito. Quem não conhecia o tamanho da cabeça de Lucio Costa, a grandeza dos seus múltiplos interesses, agora ficará conhecendo. Quem não tinha a medida do seu compromisso com a transformação social, agora terá. Raramente se comentam inclusive as suas preocupações ambientais, que foram também muito grandes. Tudo isso pode agora ser melhor avaliado por todos os interessados, graças a esse trabalho que foi realizado e dado a público.

Para não me estender demasiado – eu já escrevi sobre isso também no catálogo da exposição, a convite dos organizadores – eu gostaria de dizer apenas que, para nós, do Ministério da Cultura, é de homens assim que o Brasil precisa: homens que desrespeitam deliberadamente a repartição das competências e a especialização exagerada do conhecimento e do trabalho. Porque a construção política de um país – qualquer que seja ele – exige uma capacidade de coordenar e articular diferentes conhecimentos que, se não são coordenados e articulados, não transcendem a esfera de suas especialidades. Lucio Costa foi um exemplo de inteligência, nesse sentido. E um exemplo de conduta. É muito alentador que os jovens brasileiros possam conhecer sua vida e sua obra, com tanta profundidade.

Obrigado a todos. E parabéns a todos que participaram desse trabalho.

Juca Ferreira
Ministro de Estado da Cultura

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