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Discurso do ministro da Cultura, Juca Ferreira, na solenidade de entrega do diploma de Patrimônio Cultural da Humanidade à Cidade da Ribeira Grande de Santiago, Cidade Velha, em Cabo Verde

CIDADE VELHA, 2 DE JUNHO DE 2010

Excelentíssimo Senhor Presidente da República de Cabo Verde,  PEDRO PIRES
Excelentíssimo Senhor Primeiro-Ministro de Cabo Verde,  JOSÉ MARIA PEREIRA NEVES
Excelentíssimo Senhor Secretário-Geral da Comissão Responsável pelas
Comemorações do Descobrimento e da Independência de Cabo Verde, ANTÓNIO DE OLIVEIRA,
Excelentíssima Senhora Ministra do Ensino Superior, Ciência e Cultura, FERNANDA MARIA DE BRITO MARQUES,
Excelentíssimo Senhor Embaixador de Cabo Verde no Brasil, DANIEL ANTÓNIO PEREIRA
Excelentíssima Senhora Embaixadora do Brasil em Cabo Verde, MARIA DULCE DE BARROS
Excelentíssimos Senhores Ministros, Secretários de Estado e demais autoridades presentes,
Senhoras e Senhores,

Hoje venho aqui dizer-vos, do fundo de meu coração baiano, obrigado – muito obrigado. Pois antes de haver a Bahia, houve Cabo Verde. Antes de termos as missas, carnavais e pelourinhos de Salvador, tivemos o prelúdio dessa imensa aventura na Cidade Velha da Riberia Grande. A este sítio mágico, Patrimônio da Humanidade, coube de fato a primazia.

Aqui foi o primeiro chão onde os portugueses tentaram sua sorte em terras tropicais. Aqui as naus de Vasco da Gama, Cristóvão Colombo e de tantos outros navegadores vieram fazer suas aguadas e buscar
víveres. Aqui foram aclimatadas muitas das espécies vegetais e animais introduzidas no Novo Mundo. Aqui vinham dar os negros da Guiné, antes de serem levados como mão-de-obra escrava para as Américas. Aqui se constituíram as primeiras capitanias e as primeiras plantações de cana-de-açúcar. Aqui começou a miscigenação e adocicaram-se nossa fala e nosso modo de ser. Aqui iniciou-se a saga da colonização, com suas luzes e suas trevas. Aqui nasceu Cabo Verde, mas também o Brasil.

Essa história comum a nossos dois países está representada de forma exemplar na arquitetura da Cidade Velha. A igreja de Nossa Senhora do Rosário, com sua simplicidade austera e formas ensimesmadas, deu
origem a toda uma linhagem de construções religiosas, que ganhariam em fausto e esplendor nos sítios de Olinda, Salvador, São Luís, Diamantina, Ouro Preto e Congonhas do Campo. O forte real de São Filipe, postado no alto, com suas firmes muralhas, espelha outras tantas fortificações erguidas ao longo da costa brasileira em defesa contra os ataques de corsários franceses, ingleses e holandeses. E o pelourinho da praça central, fincado no solo virgem dos trópicos qual imagem antípoda da mensagem cristã, não nos deixa esquecer os laços de sangue que nos unem à mãe África. Temos aqui um Brasil em resumo. A própria síntese da formação social dos países de língua portuguesa.

Tendo sido eleito pelos estados membros da UNESCO Presidente do Comitê do Patrimônio Mundial, coube-me a honra de vir a esta cerimônia fazer a entrega do diploma que confere à Cidade Velha da Ribeira Grande o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Urbe pioneira na empreitada colonial européia, ponto de encontro de três continentes e palco de embates entre as principais potências mundiais nos séculos XVI, XVII e XVIII, não resta dúvida quanto ao valor universal excepcional deste sítio. O título é merecido e constitui justo motivo de orgulho para o povo cabo-verdiano.

Na qualidade de Presidente do Comitê, vejo com satisfação a valorização do patrimônio cultural africano e lusófono. O título conferido à Cidade Velha vem ao encontro de todo um esforço que temos levado adiante no sentido de atualizar a Convenção do Patrimônio Mundial, adaptando-a à realidade dos países em desenvolvimento e libertando-a do viés eurocêntrico que por tanto tempo marcou sua implementação. Mas é como Ministro da Cultura do Brasil que verdadeiramente exulto. Esta vitória de Cabo Verde toca-me fundo. A luta dos cabo-verdianos pelo desenvolvimento e por um maior reconhecimento internacional é a mesma luta que nós brasileiros hoje travamos. Assim como tivemos um passado comum, estou certo de que haveremos de ter um futuro compartilhado. Este futuro não é algo distante, projetado no tempo. Ele começa agora, no presente, com a união de nossos povos na busca do progresso, do bem-estar e da
felicidade.

Nestes quase oito anos de governo do Presidente Lula, o Brasil deixou de ser um país periférico para ocupar o centro da agenda internacional.

Nossa economia voltou a crescer de forma sustentada e já desponta como uma das mais dinâmicas do planeta. Ao contrário do ocorrido em outros momentos de nossa história, esse crescimento vem ocorrendo em sintonia com a progressiva superação das desigualdades sociais. Pela primeira vez, a pesada herança colonial e escravista está sendo equacionada, com a inclusão de mais de 40 milhões de brasileiros em uma nova classe média – mais moderna, mais democrática e mais orgulhosa de sua cultura e de suas origens.

Esse novo Brasil será ainda mais completo como nação se souber abrir-se para o mundo com a mesma grandeza que vem demonstrando na solução de seus desequilíbrios internos. Em especial, toca-nos levar
adiante um projeto de efetiva integração com o continente africano, que há de encontrar sua expressão mais genuína no relacionamento com os estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Não nos interessa uma atuação externa antiquada, que mimetize as práticas hegemônicas de outras potências. O segredo de uma prosperidade sustentada está em compartilharmos o desenvolvimento, em contribuirmos para o progresso e o bem-estar de nossos irmãos latino-americanos, caribenhos e africanos. Sobretudo aqueles que dividem conosco uma mesma história e uma mesma língua.
Prosperidade gera prosperidade. Riqueza gera mais riqueza. Quanto melhor estiver Cabo Verde, melhor estará o Brasil. Quanto mais afluente for o povo de Cabo Verde, mais se beneficiará o povo brasileiro.

Quanto mais pujante for a cultura de cabo-verdiana, mais estímulos terá a cultura brasileira. Cabo Verde é um país admirado internacionalmente por seu papel de liderança no continente africano, pela solidez de suas instituições democráticas e pela seriedade de sua gestão pública. Tais dados, no entanto, estão longe de resumir a grandeza da alma cabo-verdiana.

Estas ilhas “naufragadas entre mar e céu” são também o berço de uma cultura vibrante, diversa e prenhe de criatividade. Ainda que a terra dê poucos frutos e o clima rigoroso exija dos homens e mulheres daqui
bravura semelhante à que cobra dos sertanejos brasileiros, as artes cabo-verdianas continuam a florescer com vigor, seja na escrita elegante de Mário Fonseca, Germano Almeida e Arménio Vieira, seja na música saudosa com que Tito Paris e Cesária Évora encantaram o mundo.

Assim nós brasileiros vemos Cabo Verde: uma terra agreste, porém cheia de amor, de música e de poesia; um povo mestiço, sofrido, mas cheio de vida, de lirismo e de alegria. Nosso desafio agora é estarmos ainda mais juntos. Com esse propósito vim aqui, trazendo alguns de meus principais colaboradores: o Presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo; o Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, Luis Fernando de Almeida; o Diretor de Relações Internacionais, Marcelo Dantas; e o Gerente de Cooperação Bilateral, Bruno Melo. Juntamente com a equipe do Ministério da Cultura, integram
também a delegação que me acompanha o Doutor Carlos Moura e a Doutora Carolina Nascimento, representantes da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Mais tarde, hoje, promoveremos um espetáculo musical com Daniela Mercury e Tito Paris. Tal é a importância que atribuímos a Cabo Verde – especialmente neste momento em que o país comemora seus 550 anos de descobrimento e 35 anos de
independência.

A cultura vive do diálogo e da troca. Intensificar o intercâmbio artístico e cultural entre o Brasil e Cabo Verde significa ampliar o espaço vital da língua portuguesa e enriquecê-la com a doce melodia do crioulo. Apoiar Cabo Verde na área da economia da cultura, ajudando o país a produzir mais artistas e a dar-lhes melhores condições de permanecer aqui implica valorizar a cultura da CPLP como um todo.

Cooperar com Cabo Verde nas áreas de patrimônio, museus, bibliotecas, audiovisual e livro e leitura equivale a fortalecer as sinergias entre nossos dois países.

Brasil e Cabo Verde têm em seus povos e culturas sua maior riqueza. Aí deve estar o foco de nossas atenções. Quanto mais investirmos na inclusão social e no apoio à produção cultural, maior retorno teremos.

Maior será o número de consumidores de cultura e melhor será a qualidade de nossa produção artística. Quanto mais intercâmbio, mais estímulos, mais criatividade e mais riqueza.

No Rio de Janeiro, acabamos de implantar, com o apoio da UNESCO, um Centro de Formação e Gestão do Patrimônio, voltado especialmente para a cooperação com os países africanos de língua portuguesa. Em
novembro, realizaremos, nessa mesma cidade, o I Congresso de Cultura de Língua Portuguesa, com o propósito de celebrar nossa herança comum e estudar formas de ampliar o intercâmbio e integração nas áreas da música, teatro, literatura, cinema, dança, artes visuais e arquitetura. Estamos também examinando, em conjunto com o Ministério da Educação, a possibilidade de oferecermos bolsas de estudo para formação nas áreas das artes e gestão cultural. Pretendemos, por fim, desenvolver, bilateralmente, iniciativas de aproximação cultural com Cabo Verde e os demais países de língua portuguesa.

Muito precisa ser feito. Estamos apenas começando. Mas, neste tímido começo, podemos já vislumbrar o alvorecer de um novo tempo, com Brasil e Cabo Verde ainda mais próximos, ainda mais irmãos. Nessa expectativa de um futuro mais justo, mais criativo e mais próspero, evoco as palavras de Amílcar Cabral, em seu poema “Regresso”:

“Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração.

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim…
Ouvi dizer que a Cidade Velha,
-       a ilha toda -
Em poucos dias já virou jardim…
Dizem que o campo se cobriu de verde,
Da cor mais bela, porque é a cor da esperança.
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
É a tempestade que virou bonança…
Venha comigo, Mamãe Velha, venha.
Recobre a força e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração”.
Viva Cabo Verde!
Viva Cidade Velha da Ribeira Grande – Patrimônio Cultural da Humanidade.

Muito obrigado.

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