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Mundo ainda chora a morte de José Saramago

Jornal de Angola Online, em 22/06/2010

A morte do escritor português José Saramago, na sexta-feira, aos 87 anos, criou um vazio no mundo das artes. Colegas de profissão e admiradores consideraram a perda uma mácula na literatura mundial, particularmente a de língua portuguesa. A tristeza e o significado da sua morte foram expressas em vários meios de comunicação social do mundo, como forma de dar a conhecer, ainda melhor, quem foi José Saramago.

Algumas instituições literárias, como a Academia Brasileira de Letras, de que Saramago era sócio correspondente, decretaram luto. A bandeira da associação tem estado a meia haste na sede da academia.

Nesta altura de luto, particularmente para os portugueses – o corpo do escritor foi cremado ontem, no cemitério de São João, em Lisboa – o Presidente de Portugal, Cavaco Silva, disse que como escritor de projecção mundial, agraciado com o Prémio Nobel de Literatura, José Saramago vai ser sempre uma figura de referência.

“A realização das cerimónias fúnebres de Saramago em Portugal é um imperativo e uma honra para o país, que tem de reconhecê-lo e valorizá-lo porque o escritor era uma grande figura da literatura mundial”, declarou.

Gabriela Canavilhas, ministra da Cultura de Portugal, lembrou que “Saramago é o escritor português mais traduzido e o mais conhecido internacionalmente. Ele sempre valorizou muito a liberdade. Era um homem de determinação e de liberdade interior elevadíssimo. A sua morte é uma perda incalculável”.

O editor das obras de Saramago em Portugal, Zeferino Coelho, frisou “que Saramago deixou um monumento literário imponente”.

“Do ponto de vista de Portugal, podemos comparar sua obra com a de Fernando Pessoa. Saramago sempre teve linhas próprias. Portanto, não há diferença entre o Saramago escritor e o cidadão”, referiu.

Um Saramago “irmão”

Nicole Witt, agente internacional de José Saramago nos últimos três anos, salientou que a notícia da morte foi muito triste porque o mundo sentia Saramago muito próximo, tanto pela obra, como pela sua orientação.
“Foi um amigo de muitos anos. De corpo ele estava bastante frágil, mas, ao mesmo tempo, tinha muita serenidade”, disse.

O presidente do Brasil, Lula da Silva, afirmou que “José Saramago contribuiu, de maneira decisiva, para uma maior valorização da língua portuguesa”.

De origem humilde, referiu, tornou-se autodidacta e projectou-se como um dos maiores nomes da literatura mundial.

“Recebeu o Prémio Camões, distinção máxima conferida a escritores de língua portuguesa, e o Nobel de Literatura. Nós, da comunidade lusófona, temos muito orgulho do que o seu talento fez pelo engrandecimento do nosso idioma. Como intelectual respeitado em todo o mundo, José Saramago nunca esqueceu as suas origens e tornou-se num militante activo das causas sociais e da liberdade. Neste momento de dor, quero me solidarizar, em nome dos brasileiros, com toda a nação portuguesa pela perda de seu filho ilustre”, sublinhou.

“A sua perda é recebida com muita tristeza, particularmente pelos que têm apreço pela língua portuguesa e pela sua importância cultural em tantos continentes. O Ministério da Cultura do Brasil soma-se aos que lamentam e manifestam a dor pela perda desse grande escritor”, disse o ministro da Cultura do Brasil, Juca Ferreira.

O presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinicius Vilaça, revelou que a associação aguardava a informação sobre quando José Saramago ia ao Rio para providenciar a organização da sua posse na Cadeira 16 de Sócio Correspondente. “A notícia deixou-nos em estado de enorme tristeza. A próxima sessão da academia, na quinta-feira, vai ser dedicada à memória do grande escritor português, por quem sempre tivemos o maior respeito e admiração”, disse.

“As letras brasileiras se associam à dor de seus leitores por todo o mundo, lamenta a sua partida e destaca a riqueza da sua literatura. José Saramgo foi um sábio, um grande escritor, um ser humano de primeira grandeza”, salientou a escritora Ana Maria Machado.

José Sarney, ex-Presidente do Brasil e membro da Academia Brasileira de Letras, destacou que “a perda de um escritor do porte de José Saramago abre um espaço na literatura de língua portuguesa”.

“Autor de estilo difícil e provocador, José Saramago trabalhava as suas personagens sempre com características psicológicas. Após o Nobel, Saramago tornou-se um personagem mitológico, um centauro que dividia a literatura com a política, sempre em posições críticas sobre a sociedade actual. Hoje, vemos que ainda havia muito dele para o mundo ver, visto que morreu no ápice da sua produção literária. Prova disso é no seu último livro, “Caim”, onde deixa a sua marca indelével”.

O cineasta brasileiro Fernando Meirelles, que adaptou o livro “Ensaio sobre a cegueira” para o cinema, disse que José Saramago “dizia que a morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não mais estar”.
“Ele combatia as religiões com fúria, dizia que elas nos embaçam a visão”, afirmou, adiantando:
“O mundo vai ser um lugar mais duro e cego com a morte de Saramago”.

O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro disse que a morte de Saramago representa a perda, para a literatura portuguesa e do mundo contemporâneo, de um dos maiores escritores de todos os tempos.

A actriz brasileira Letícia Sabatella revelou que conhecia José Saramago pessoalmente: “Interpretei duas personagens dele, na peça “Memorial do convento” e no lançamento do livro “As intermitências da Morte”, em que encarnei a Morte. Ele era um homem crítico e irónico”.

O actor Thiago Lacerda referiu que do escrito “é uma perda irreparável para a literatura mundial, principalmente para as dos países de língua portuguesa”.

Dor atinge várias esferas sociais

“Os espanhóis choraram a morte de José Saramago como se fosse de um filhos da terra por ele nos ter enriquecido com o seu olhar compassivo e lúcido”, afirmou o Chefe do Governo espanhol.

“A jangada de pedra que ele contou e une, além das fronteiras, Espanha e Portugal, sente a perda de uma de suas vozes mais preocupadas com o ser humano. Portanto, espanhóis e portugueses compartilham hoje a mesma dor, mas também o exemplo que o seu legado de solidariedade, de inteligência e afecto deixa”, acrescentou José Luís Zapatero.

A ministra da Cultura da Espanha, Ángeles González-Sinde, considerou-o “um homem comprometido, progressista, de esquerda, com um compromisso ideológico e vital para com as vítimas e os conflitos, que sai parte da sua ideologia e da sua vocação”.

“Hoje é um dia triste para a cultura, temos de começar a acostumar-nos à ideia que não vamos ter novos romances de Saramago, nem mais artigos seus. Muitos leitores e muitos dos espanhóis, infelizmente, vivemos de costas voltadas para a cultura portuguesa e olhamos mais para o nosso lado da fronteira do que para o país vizinho, mas Saramago abriu a porta a essa cultura tão maravilhosa, da qual depois nos apaixonamos para sempre”, frisou.

O ministro de Assuntos Exteriores da França, Bernard Kouchner, disse que, com a morte de Saramago, “Portugal perde um dos seus maiores escritores e a França um amigo próximo”. “Durante toda vida, José Saramago foi um homem comprometido com as liberdades. Lutou contra a ditadura para que seu país reencontrasse a democracia e continuou, em nome dos mesmos ideais, este combate no mundo todo, especialmente em Timor-Leste”.

Felipe Calderón, Presidente do México, sublinhou que a “obra de José Saramago é uma referência indispensável na literatura universal, já que permite entender, através da imaginação e de uma ironia subtil, as transformações da sociedade”.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano realçou a obrigação que a humanidade tem agora de preservar a sua obra. “Neste mundo há finais que também são começos, mortes que são nascimentos. E é disso que se trata. Ele foi-se embora, mas ficou entre nós, através dos seus livros”.

Nabil Shaath, Fatah, referiu o facto de “José Saramago ter mostrado ao mundo que a causa palestiniana é universal e pode ser assumida por quem queira aderir aos princípios de liberdade, igualdade, paz e justiça”.

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