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Aposta no lazer digital

CORREIO BRAZILIENSE - DF | ECONOMIA, em 12/07/2010

Setor de entretenimento no BRASIL deverá crescer 8,7% ao ano até 2015, impulsionado pela demanda por internet, videogame e TV por assinatura

Fernando Braga

O impacto provocado pela revolução digital na vida das pessoas tem feito com que velhos hábitos de diversão sejam, gradualmente, substituídos por novas formas de entretenimento dentro das casas dos brasileiros. Com isso, a tecnologia tem se tornado a principal aliada do consumidor na hora do lazer. O momento tem sido tão favorável às empresas que atuam no setor, que a consultoria Pricewaterhouse Coopers estima: nos próximos quatro anos o Brasil será um dos países que liderará a expansão do segmento de entretenimento e mídia em todo o mundo.

Impulsionado pelo aumento do poder de compra do brasileiro – especialmente nas classes C e D – e pela forte demanda que existe por serviços como TV por assinatura, internet e videogame, esse mercado vai crescer, de acordo com o relatório da consultoria, a uma taxa média anual de 8,7% no país – volume menor apenas que os 12% estimados para a China. A média nacional é superior, inclusive, à projetada para o mundo, de 5%. Estima-se que a indústria de entretenimento movimente, atualmente, US$ 1,3 trilhão ao ano.

Pelo relatório da Pricewaterhouse, as tecnologias digitais terão impacto cada vez maior em todos os setores do entretenimento, guiadas principalmente pelas transformações digitais que chegam cada vez mais forte aos usuários. Para a sócia-líder da área de telecom da consultoria, Estela Vieira, como o Brasil saiu fortalecido da crise financeira, o consumidor está mais confiante para gastar com o próprio lazer. “Quando há uma melhoria no salário do trabalhador, automaticamente ele supre algumas necessidades básicas e passa a desejar outros produtos e serviços. É algo natural e, com a economia estável, isso tende a crescer”, analisa. Para ela, o novo formato baseado no digital é um propulsor para o segmento. “A digitalização das tecnologias ajuda o setor como um todo, que atualiza as gerações de seus produtos e atrai novos consumidores ou faz com que os antigos realizem upgrades”, aponta.

Foi o que aconteceu com o engenheiro de sistemas Geovan Alves Diogo, 35 anos. Atraído pelos recursos oferecidos por um novo pacote digital de TV por assinatura, ele assinou, há dois meses, um novo plano. “Assistir a uma programação em alta definição é muito melhor. A diferença é gritante. Além disso, tenho crianças em casa e considero que TV à cabo faz parte de um pacote que considero essencial para mim”, conta.

Cobertura como eixo

O aumento na cobertura da internet é visto como uma das principais válvulas propulsoras para o setor de entretenimento no país. “Estimamos que, nos próximos cinco anos, haverá crescimento de 16,4% em gastos com acesso à internet no Brasil, o que mexerá com outros setores, desde a publicidade digital até o comércio on-line”, aponta Estela. A afirmação é baseada, principalmente, no fato de a rede de telecom trazer, além da navegação ao usuário, serviços diretamente atrelados à oferta de entretenimento como TV por assinatura e games on-line.

Para o coordenador do curso de marketing digital da ESPM, Marcelo Lobianco, a internet deve ser vista como um dos principais carros-chefes desse segmento, uma vez que a convergência tecnológica integra diversos tipos de lazer oferecidos em uma única máquina. “Se você pensar, há cinco anos não tínhamos serviços como redes sociais e YouTube, que, atualmente, são febre entre os brasileiros. Com o aumento do acesso à internet, acredito que novas formas de lazer estarão ao alcance das pessoas”, afirma, lembrando que a expansão da cobertura da internet contribui para o crescimento econômico de um país. De acordo com dados do Banco Internacional de Desenvolvimento, a cada 10% de penetração da internet na população, há um aumento de 1,6 ponto percentual no Produto Interno Bruto (PIB).

Encargos fiscais

Apesar dos altos encargos fiscais que encarecem as vendas dos videogames no país, os jogos eletrônicos também passarão a fazer cada vez mais parte da preferência dos brasileiros na hora do descanso. Segundo a Pricewaterhouse, essa indústria deverá ter uma expansão média de 10% até 2014, passando a movimentar US$ 498 milhões ao ano nas vendas de consoles e títulos.

De olho no sucesso de aparelhos como o Wii, o Playstation 3 e o Xbox 360, o empresário Marcelo Cunha, proprietário da Supergames, lojas especializada em jogos, resolveu ampliar os negócios e inaugurar outras duas unidades em movimentados shoppings de Brasília. “O consumo por videogame vem crescendo. Hoje, não é mais visto somente como um produto para crianças. Os adolescentes que cresceram com os jogos dos anos 1980 hoje são adultos, estão empregados, dispõem de maior renda e continuam investindo nesse tipo de diversão”, diz.

É o caso do bancário Otalívio Evangelista, 34, típico membro da chamada geração Atari e que hoje se diverte com produtos mais modernos. Dono de um Playstation 3, ele conta que não poupa quando o assunto é games. “Eu até brinco dizendo que não gasto dinheiro com carro ou bebida, mas não economizo quando tenho que comprar jogos”, diz o bancário, que gasta todos os meses uma média de R$ 250 com novos títulos. “O videogame é uma peça fundamental para o meu lazer”, conclui.

Quando há uma melhoria no salário do trabalhador, automaticamente ele supre algumas necessidades básicas e passa a desejar outros produtos e serviços. É algo natural e, com a economia estável, isso tende a crescer”

Estela Vieira, sócia da consultoria Pricewaterhouse Coopers

O Número

US$ 1,3 trilhão

Movimento anual da indústria de diversão e mídia no mundo

Editoras se unem pelos e-books

Com a chegada dos chamados e-books, aparelhos como o Kindle e o iPad, que permitem a LEITURA de livros no formato digital, o mercado editorial brasileiro está se transformando para ingressar no mundo dos bits. De olho nesses consumidores, as seis maiores editoras de livros do país, que antes disputavam cada fatia do setor, anunciaram uma parceira para criar uma plataforma de distribuição de títulos literários digitalizados. Composta pelas empresas Objetiva, Record, Sextante, Intrínseca, Rocco e Planeta, a Distribuidora de Livros Digitais (DLD) pretende faturar até o fim de 2011 aproximadamente R$ 12 milhões. A meta é oferecer pelo menos 500 títulos digitais. A partir do ano que vem, a distribuidora pretende incluir, todos os meses, uma média de 300 títulos ao acervo eletrônico. Os e-books são vendidos, em média, com um preço 30% inferior ao da versão impressa.

A editora Zahar é outra que aposta no segmento para renovar uma velha forma de lazer ao consumidor dos novos tempos. Das 800 obras disponíveis em seu catálogo, 170 foram convertidas para o formato digital e mais 250 devem estar disponíveis nos próximos dois meses. “É um caminho que não tem mais volta e as editoras e livrarias estão se preparando para o crescimento desse mercado”, relata a gerente de comunicação e marketing da Zahar, Isabela Santiago.

Hábito da Leitura

Segundo dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e da Câmara Brasileira do LIVRO (CBL), as editoras venderam 333,2 milhões de exemplares em 2008. A estimativa das empresas é de que pelo menos 10% desse volume total migre para a literatura digital nos próximos anos. O gosto natural do brasileiro pela web vai ajudar na expansão desse mercado por aqui. Dados do Observatório do LIVRO e da LEITURA, mostram que pelo menos 3% dos leitores do país (cerca de 4,7 milhões) são adeptos de mídias digitais. “O formato alavanca leitores de uma geração que tem pouca proximidade com o LIVRO impresso, mas uma facilidade inata para lidar com a tecnologia. Quem já tem o hábito da LEITURA ganha mais uma opção de suporte com o LIVRO digital”, defende a executiva da Zahar.

No Brasil, os números ainda engatinham, principalmente pelo alto valor com que os aparelhos de LEITURA chegam aqui, com variação de R$ 500 a R$ 1,2 mil. Mesmo assim, Observatório do LIVRO e da LEITURA informa que 7 milhões de brasileiros têm o costume de baixar livros gratuitamente pela internet.

América Latina lidera expansão

Nos últimos cinco anos, a América Latina foi a região que apresentou maior crescimento no setor de entretenimento. Em 2009, ano em que os investimentos diminuíram nos principais mercados, a região teve avanço de 3,9% no setor, movimentando US$ 50 bilhões, dos quais US$ 23 bilhões no Brasil. Até 2014, a estimativa é de que os latinos cresçam 8,8% ao ano ante 4,6% na Europa, Oriente Médio e África. A América do Norte, tida como o mercado mais importante para o segmento – só no último ano, movimentou US$ 460 bilhões -, deverá ter expansão mais lenta: 3,9%.

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