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Oferenda musical

Jornal de Brasília, caderno Cultura, em 20/08/2010

Cantoras celebram cultura afro-brasileira com concerto em tributo a Iemanjá

Da Redação

As cantoras Alaíde Costa, Daúde, Luciana Mello, Margareth Menezes, Mart’nália, Paula Lima e Rosa Marya Colin aterrissam na cidade para celebrar os 22 anos de existência da Fundação Cultural Palmares (FCP), instituição voltada para a formulação e execução de políticas públicas da cultura negra. No concerto – que vai virar um DVD -, intitulado Mães D’Água – Yèyé Omó Ejá -, cada uma representará um dos sete arquétipos mais difundidos de Iemanjá: Yemoyo, Ogunté, Yewa, Asaba, Yamassê, Olossá e Yasessu. Para Margareth Menezes, a oportunidade de estar em um show só de cantoras negras, homenageando Iemanjá, é uma experiência forte, espiritual. “Essa representação divina está relacionada a nossa ancestralidade”, diz a cantora que, juntamente com suas colegas, lembrou a todo momento a importância de lutar pela igualdade racial no Brasil.

O maestro do concerto, Ângelo Rafael Fonseca, afirma que dar forma a sete de muitas das qualidades de Iemanjá foi uma tarefa árdua. “É preciso conciliar a orquestra sinfônica, sete cantoras e um repertório diferente do que elas estão acostumadas”, esclarece. Fonseca revela que no set list constam músicas de Vinícius de Moraes, Baden Powell e Dorival Caymmi. “Não quero falar muito, para deixar um gostinho de quero mais”, brinca. Fábio Espírito Santo, diretor artístico, diz que o show será uma oferenda musical a Iemanjá. E emenda: “Será delicado, feminino, mas forte. Com todo brilho e beleza que ela gosta”.

Luciana Mello, mãe há pouco tempo, acredita na importância de eventos desse porte para a disseminação positiva da cultura negra: “Coloquei mais uma menina no mundo e ensinarei a ela a importância de se orgulhar de suas raízes”. O presidente do FCP, Zulu Araújo, ressalta: “Ninguém mais do que a mulher negra foi responsável pela divulgação e permanência da cultura afro-brasileira no País”.

As comemorações do aniversário da fundação,  iniciadas ontem com palestras, debates e o lançamento dos livros O Negro na TV Pública, de Joelzito Araújo, e Revolução Constitucionalista, de Maurício Pestana, e encerra-se hoje, com uma maratona de shows. Grupos de samba se apresentarão na sede da FCP de 11h às 16h e, às 21h, as sete divas se encarregarão do grand finale das celebrações, no Teatro Nacional.

O maestro Ângelo Rafael acre-dita na importância dos debates, mas afirma que a música é um registro da cultura de maneira mais afetiva e não deixa de ser também um veículo que leva o público à reflexão. “Após o show quero que pensem ‘E agora? Qual é o próximo passo?’”. E, de modo bem-humorado, Rosa Marya Colin afirma: “Vá e elogie a todos. Somos muito bons”. E completa: “O Brasil precisa dar valor aos talentos de seu País. Já andei por muitos lugares e talentos iguais aos nossos não existem. Temos que nos amar e nos valorizar”.

Mães D’Água – Yèyé Omó Ejá – Hoje, às 21h, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Entrada franca até a lotação do teatro. Não recomendado para menores de 12 anos.

SAIBA +

Yèyé Omó Ejá, frase que intitula o concerto, significa, em yoruba, mãe cujos filhos são peixes, mãe d’água – ou seja, Iemanjá, divindade ligada à água que rege os ciclos da natureza, segundo tradições de religiões de matrizes africanas.

Durante o show, as cantoras estarão reunidas em blocos temáticos, solando ou em dueto e serão exibidos vídeos de ritos ligados a Iemanjá e trechos de uma entrevista com uma mãe de santo.

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