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Celebração no espaço sagrado

Correio Braziliense, caderno Diversão e Arte, em 07/09/2010

Gabriela de Almeida Enviada especial

Recife e Olinda (PE) – Desde a última quinta-feira, Pernambuco silenciou a palavra para receber a 7ª Mostra Internacional de Música em Olinda (Mimo), evento que reúne música instrumental, cinema e oficinas em diferentes pontos da cidade localizada na região metropolitana de Recife, na capital pernambucana e em João Pessoa, na Paraíba.

A Mimo apresentou nestes últimos dias grandes nomes da música instrumental, como Egberto Gismonti e o pianista norte-americano McCoy Tyner, que tocou cinco anos com John Coltrane, em locais sagrados da região. Os concertos foram realizados dentro das igrejas de Olinda, Recife e João Pessoa. Foi como se a música estivesse dentro do território onde mais é representado, como uma prece, algo sagrado. “Os próprios artistas têm uma forma diferente de atuar na igreja. É um respeito com o ritual”, enfatiza André Oliveira, diretor artístico da Mimo.

Idealizadora da mostra, Lu Araújo sempre achou que Olinda era muito marcada pelo carnaval e pouco explorada em ações culturais. A fusão do popular com o erudito e a possibilidade de exibir concertos internacionais de graça impulsionaram o projeto, que começou tímido em 2004, mas que hoje repercute nacionalmente, principalmente entre os músicos que fazem o boca a boca da experiência vivida. “Não acredito que as pessoas não gostam de música clássica. Elas simplesmente desconhecem”, conclui Lu, que escolheu as igrejas justamente para provocar a reflexão acerca da preservação do patrimônio histórico brasileiro.

Os R$ 1,5 milhão investidos na Mimo com verbas do Ministério da Cultura e do BNDES possibilitaram um aumento de 50% na programação deste ano em relação a 2009. A etapa educativa, evento paralelo que permite oficinas, máster classes e cursos com jovens, atingiu a marca de 2 mil alunos em 4 anos, com aparições de alunos-destaques que já foram convidados para orquestras internacionais.

A programação da sétima edição da mostra começou na quinta-feira com a Orquestra Sinfônica de Barra Mansa, que apresentou a Sinfonia nº 5 de Tchaikovsky com a regência de Isaac Karabtchevsky. O filme exibido foi Uma noite em 67, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil. Na sexta-feira, a noite começou repleta de doçura. O Trio Puelli, formado por Ana de Oliveira (violino), Ji Shim (violoncelo) e Karin Fernandes (piano), preencheu o Convento de São Francisco de boas energias, que ditariam o restante da mostra.

O Duofel, composto por Luiz Bueno e Fernando Melo, completa 32 anos de carreira com uma preciosidade. A dupla lançou recentemente o disco Duofel plays the Beatles, com releituras de clássicos do quarteto.

Demonstrando uma cumplicidade incrível no palco, Luiz Bueno e Fernando Melo iniciaram o show no Seminário de Olinda com elogios à banda britânica e uma breve história que narrou o amor pelo grupo. “Quando ouvimos Beatles pela primeira vez, tivemos certeza que seríamos músicos. Para nós, o sonho não acabou”, ressaltou Luiz Bueno.

Uma das apresentações mais esperadas de sexta-feira, Mario Canonge Trio ocorreu na belíssima Igreja da Sé. A energia caribenha tomou conta do lugar com a chegada do trio encabeçado pelo pianista Mario Canonge, natural da Martinica. Canonge confessou ser um amante da música brasileira.

No sábado, o espaço da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Recife, pareceu pequena diante da magnitude do multi-instrumentista Egberto Gismonti e da Orquestra de Sopros da Pro Arte. Mais tarde, os descontraídos meninos do sexteto Selmer #607 deram um show de jazz manouche, ou jazz ciganos, como também é conhecido. O som ligeiro e de qualidade contemplou no repertório Michael Jackson e Manu Chao. O ponto alto da noite de domingo foi o pianista McCoy Tyner. Os aplausos eufóricos com as mãos para o alto demoraram para cessar após a excepcional exibição do músico, que recebeu como convidado especial o saxofonista Gary Bartz.

A licença poética

O performático Tom Zé deitou e rolou na Mimo. Literalmente. O baiano utilizou o palco como seu aliado em show na Praça do Carmo no domingo, em Olinda. Em dado momento, Tom Zé tirou as duas saias que vestia sobrepostas à calça preta social e desceu para dançar forró com uma fã que estava na fila do gargarejo. E vibrou com a praça lotada, que assistia ao show do novo disco, O pirulito da ciência. Um pouco antes das 22h, horário marcado para o início do show, Tom Zé já havia sido visto por dezenas de espectadores que assistiram atentamente ao filme Tom Zé astronauta libertado, do diretor espanhol Ígor Iglesias González. E agora, o que faz Tom Zé em uma mostra essencialmente instrumental. “Tom Zé é a nossa licença poética”, vibrou Lu Araújo.

O número

75 mil
Público médio da Mimo em Recife, Olinda e João Pessoa

A repórter viajou a convite da Mimo

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