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Um poeta MAIOR

A Tarde, Caderno 2, em 02/10/2010

Ferreira Gullar

Aos 80 anos, o escritor maranhense, considerado o grande poeta contemporâneo do País, lança novo livro

Marcos Dias

Foguetes Tomahawk caíam sobre Bagdá, enquanto o poeta Ferreira Gullar sorvia aromas das flores de jasmim nas ruas do Rio. Seu gato, indiferente ao seu “suposto prestígio literário”, ou ao rumo que um novo poema teria, após espreguiçar-se, dorme sobre a página solta. E numa tarde de dezembro de 2008, mais precisamente no dia 2 de dezembro, ele limpa as unhas, ao mesmo tempo em que uma estrela se extingue na galáxiaM 31. A 2 milhões e 200 mil anos-luz da Terra. E do País.

São instantes assim, ao lado de poderosas reflexões sobre a morte e a criação poética, que o novo livro do maranhense nascido há 80 anos, Em alguma parte alguma, oferecem.

Sobre Gullar, disseram intelectuais como Sérgio Buarque de Hollanda: “É o nosso único poeta maior dos tempos de hoje”.

O também poeta Vinícius de Moraes admitiu: “É o último grande poeta brasileiro”. Mas muitos outros fazem coro à magnitude da obra poética que o fez receber o Prêmio Camões 2010 e ser indicado ao Nobel de Literatura em 2002 e 2004.

Seu primeiro livro, Um pouco acima do chão, foi lançado quando tinha 19 anos,ainda em São Luís. Aos 21, já estava no Rio de Janeiro. Quer nos poemas vanguardistas dos anos 1950, quando Gullar participou do concretismo e do neoconcretismo, ou nos engajados anos 1960 e 1970, a dignidade da linguagem e dos seres humanos – da qual o Poema sujo, de 1971, é o perfeito emblema – sempre foi sua distinção.

´O outro é que dá sentido à nossa existência`

Literatura Entrevista Ferreira Gullar

Marcos Dias

Desde que foi anunciado, em maio, que Ferreira Gullar, 80 anos, foi o ganhador do Prêmio Camões 2010, o mercado tem se alvoroçado para lançar novos volumes do poeta. Com extensa bibliografia, que também inclui livros infantis, de memórias, ficção, crônicas, tradução, ensaios e teatro, seus poemas já foram traduzidos para o alemão, o inglês e o espanhol, dentre outros idiomas. Seus 61 anos dedicados à poesia (o primeiro foi Um pouco acima do chão, de 1949) têm lhe ensinado o que o poema Desordem, do novo livro Em alguma parte alguma (Veja resenha), sintetiza: “Por mais que diga/ e porque disse/ sempre restará/ no dito o mudo/ o por dizer/ já que não é da linguagem/ dizer tudo/ ou é/ se se/ entender/ que/ o que foi dito/ é o que é/ e por isso/ nada há mais por dizer”.

2010 é um ano bem redondo para o poeta, aliás, sem contar os 100 mil euros do Prêmio que ganhou, com recursos divididos entre o Instituto Camões, de Portugal, e a Biblioteca Nacional, através do Ministério da Cultura. Além da edição dos novos poemas pela José Olympio, a Casa da Palavra lançou Zoologia bizarra. É umvolume que inspira crianças e adultos, com a entrega lúdica de Gullar a inventar, com colagens, seres curiosíssimos. Foi coma ajuda de Gatinho (era assim que seu gato se chamava), que, embaralhando recortes de convites, catálogos e envelopes, o fez intuir criaturas, como o Pássaro Tenista, e situações-limite como Cobra Engolindo Cobra ou O Susto do Dragão.

Considerado o maior poeta brasileiro vivo, Gullar mantém uma rotina em que pode ser visto pelas ruas de Copacabana, onde mora, muito à vontade. E escreve poesia apenas quando a necessidade determina. “A poesia é uma coisa muito especial e, nesse sentido, ela não é uma forma de literatura que atinja as grandes massas. A literatura em geral – a não ser os best-sellers, que atingem milhões de pessoas, e mesmo os romances, que têm mais popularidade do que a poesia – não atinge a mesma escala de leitores”, diz ele nesta entrevista, em que também trata de temas do novo livro, vanguarda, políticas sobre drogas, a curiosa situação das artes visuais e a alegria que provém da criação artística, mesmo que essa seja movida pelo sofrimento.

Ter recebido o Prêmio Camões 2010, maior distinção da Literatura em língua portuguesa, altera sua percepção sobre o seu trabalho?

Não, de nenhuma forma. Nunca esperei ganhar prêmio, nem prêmio altera nada nesse sentido. Poesia é uma coisa de cada poeta, ligada à sua vida, seus sentimentos, trabalho, visão do mundo. O prêmio é uma coisa externa.

É importante, mas é muito mais importante para a visão e o juízo que a sociedade poderá fazer do seu trabalho do que para você mesmo.

Qual o valor que a sociedade brasileira dá à poesia e seus poetas?

De minha parte, só posso dizer que valoriza bastante, porque a repercussão que esse prêmio teve na imprensa, na televisão e nas pessoas que encontro nas ruas foi muito grande. Atribuem importância bastante significativa.

Há poetas brasileiros cujos livros são reeditados com muita frequência. Meu livro Toda poesia, até agora, está na 19ª edição. Drummond, Bandeira,Quintana e Vinicius também têm seus livros reeditados.

Mas aquela desconfiança que Platão tinha, em relação aos poetas em A República é, definitivamente, passado?

Não existe, pelo contrário. Poetas, como Bandeira, Drummond, Quintana, são admirados, servem de exemplo para as pessoas. Claro que há uma grande parte da sociedade brasileira que não tem nada a ver com poesia, mas não existe nada na sociedade que seja unânime.

Na sociedade, todos gostam de futebol? Não, não é? Conheço dezenas de pessoas que não suportam, mas é uma das coisas que desperta mais interesse na sociedade e, mesmo assim, há quem não goste de futebol.

Antes do senhor, outro poeta brasileiro que recebeu o Prêmio Camões foi o pernambucano João Cabral de Melo Neto, em 1990. Sente alguma aproximação com a poesia dele?

João Cabral era um poeta de uma geração anterior à minha e, assim como Murilo Mendes e Drummond contribuiram para a formação de João Cabral, Drummond, Murilo e João Cabral contribuíram para a minha. Mas não existe uma afinidade afetiva, porque João é um poeta muito específico, com características muito próprias. A atitude dele diante da poesia é bastante diferente da de qualquer poeta brasileiro.

Uma posição que procura racionalizar a construção do poema de maneira rigorosa.

Ele fez uma opção bastante distinta com relação aos outros poetas. Mas, mesmo assim, a formação dele se deve aos poetas anteriores.

Já há algum tempo , o senhor é considerado o maior nome vivo da poesia brasileira. Isso corresponde à ideia que tem de si mesmo?

Não. Todas as pessoas que me conhecem sabem muito bem que eu não penso isso, nem me comporto dessa maneira.

Eu vivo pela rua, aqui, de chinelos, vou ao supermercado, sou amigo das pessoas e não fico por aí alardeando méritos.

O senhor publicou seu primeiro livro aos 19 anos. Nesses seus 80 anos, em algum período, viveu apenas de poesia? Não. Eu acho que em lugar algum do mundo, nem aqui nem em lugar algum existe um autor que viva de poesia.

A poesia é uma coisa muito especial e, nesse sentido, ela não é uma forma de literatura que atinja as grandes massas.

A literatura em geral, a não ser os best-sellers, que atingem milhões de pessoas – mas mesmo os romances, que têm mais popularidade que a poesia -, não atinge a mesma escala de leitores. A poesia é especifica, é diferente.

O que importa, e uma coisa que mostra bem isso, éque você compra um livro de autoajuda, ou um policial, muito interessante e divertido e depois de ler joga fora. Mas o livro de Drummond você guarda. Duvido que compre um livro dele, leia e jogue fora ou dêpara o vizinho.A nãovser que ele tenha um outro livro ou um neto que ele quer que conheça a poesia de Drummond e ele dá. Mas você guarda.

E sempre se renova a leitura dos que a gente ama.

Sim, porque a poesia fala fundo, não se esgota. O fato de ter lido um poema não quer dizer que não precise relê-lo, pelo contrário. Eu guardo porque sei que vou querer relê-lo.

No seu novo livro,no poema Off price,osenhor diz:”Que a sorte me livre do mercado e me deixe fazendo sem saber meu poema inesperado”. O que é tão abominável no mercado? A poesia não vale nada no mercado,tenho o costume de dizer isso. No mercado, ela vale muito pouco. E é bom que o valha. Porque muitas vezes o fato de você fazer alguma coisa que tenha grande interesse comercial termina condicionando você, que começa a fazer fácil, sem a necessidade real, e a poesia exige isso.

No meu caso, eu levo 10, 11, 12 anos para publicar um livro . Se eu fosse atender ao mercado, se a poesia tivesse grande aceitação no mercado,eu não poderia passar tanto tempo para fazer o livro  e atender à demanda, coisa que felizmente não há.

Eu tenho que ganhar dinheiro com outras coisas.

E depois desses 11 anos sem publicar, as mudanças no País alteraram sua compreensão da realidade?

O País diretamente não. Mas o País mudou, muita coisa aconteceu e está em processo de mudança, mas isso não influi diretamente na poesia porque ela é um universo diferenciado.

Ela tem a ver com a realidade, tem a ver com a atualidade, mas ela tem suas referências próprias. A origem do poema é determinada por fatores aleatórios.

Não é o comício na Lapa que vai determinar o poema que o cara vai fazer, mas é muito mais o passarinho que cruzou a janela dele de manhã ou que começou a cantar do lado da cama dele.vÉ muito mais as coisas inesperadas do dia a dia que influem no poeta, não são os grandes acontecimentos.

Costumo dizer que o poema é uma notícia, mas é uma notícia assim: o fêmur bateu no osso da minha bacia e eu comecei a pensar uma porção de coisas. Ele dá a noticia disso. Eu fui saindo da casa da Claudia e um jasmineiro me agrediu, tentou me envenenar. Ele nunca anuncia: “Foram destruídas as Torres Gêmeas em Nova York”.

Há muitas referências a aromas nos poemas de Em alguma Parte Alguma. Esse sentido tem prevalência sobre o senhor?

Eu sou de fato muito sensivel a essas coisas, aromas, cheiros, e também aos sons. As coisas sensoriais têm muita presença na minha poesia, sou muito sensível a essas coisas: odores, bananas apodrecendo no alguidar, as coisas sensoriais, visuais, auditivas e olfativas têm muita influência na minha poesia.

Isso é verdade.

No poema Morte, o senhor fala da “paz do nada” e em Um pouco antes afirma “dissipar-se para sempre”. Nada na vida lhe fez reconsiderar essa certeza?

Do nada? Eu não tenho nenhuma dúvida de que o que me espera é o nada. Não tenho nenhuma dúvida quanto a isso. Por isso que eu digo que o sentido da vida é o outro. É o outro que é a minha transcendência e a transcendência de qualquer um de nós.É o outro que vai carregar meu poema consigo, é o outro, o meu neto, a minha filha, que vão lembrar de mim e vão carregar consigo minha lembrança, que houve um cara assim, assim, assim e assado.

Então,o outro é que nos mantém vivos, que mantém nossa presença no mundo.

Shakespeare morreu há séculos mas continua vivo, continua presente na sua obra que é lida, relida e encenada.

O outro é que dá sentido à nossa existência.

O senhor dialoga com Rilke na última parte do novo livro. Ele pedia a Deus que desse a cada um a morte que lhe fosse própria. Pensa a respeito da sua?

Não penso na minha, pessoal, não, penso na morte como um fenômeno. Evidentemente, sou surpreendido com um fato que me faz pensar nisso, mas não vivo pensando nesse assunto, e quando ele vem como tem um poema no livro em que eu vejo uma nesga azul celeste no horizonte, aqui em Copacabana, aquilo me comoveu.

Naquela tarde linda, eu pensei: eu poderia não estar aqui; isso vai se repetir, isso vai acontecer, essa ou outra nuvem e eu não estarei aqui.

Aí nasceu um poema em função dessa reflexão.

Que alquimia a poesia operano poeta e no leitor?

O poema é uma alquimia. O poeta transforma dor em alegria estética, em beleza. Eu costumo dizer que não é verdade essa coisa que muitos poetas dizem, que fazer poesia é um sofrimento, isso é mentira. Ninguém manda o cara fazer poesia, ele faz porque quer, a não ser que seja masoquista e vai fazer uma coisa que provoca sofrimento nele. Não é que ele diga por desonestidade, é porque o cara confunde, muitas vezes, o sofrimento que leva o poeta a escrever poemas. Mas, quando escreve, está transformando aquilo em beleza.

Mas o sujeito que lê se comove com aquilo, mas não sofre. Ele se comove de maneira feliz, é pela beleza que expressa aquilo. Mas, na verdade, a arte seria alegria, não sofrimento.

Há um século, mais ou menos, as vanguardas pipocavam no mundo, hoje o senhor diz haver um certo niilismo, sobretudo nas artes visuais. Também acontece com a literatura?

Com a literatura não, isso é só nas artes visuais.

Vanguarda houve em todas as artes do começo do século 20, mas por que só nas artes plásticas continua? Não é verdade? As vanguardas foram importantes porque renovaram a linguagem das artes e enriqueceram todas as artes.

Não sou contra as vanguardas e fui um poeta de vanguarda durante muitos anos na minha vida.

Elas enriqueceram, mas esgotaram se. E quando se esgotaram começou aquela busca do novo pelo novo, a vanguarda pela vanguarda e entrou nessa confusão das artes plásticas. O teatro foi de vanguarda, incorporou os princípios da vanguarda e se tornou um teatro mais rico, mais expressivo; a música, o cinema, o romance. Já imaginou se a literatura tivesse seguido o rumo do Finnegan ´s Wake, de Joyce, que é um livro absolutamente ilegível? Já imaginou? Não haveria todos os romances do Faulkner, belíssimos, não haveria Hemingway, não haveriam os contos e ficções de Borges, de João Guimarães Rosa também não haveriam.

Teria acabado o romance como acabaram as artes plásticas.

Aí o cara fica: “Cocô na lata”. “Larvas da mosca para observar pelo telescópio”.

Mas, foi ele que fez as larvas damosca? Então, ele não precisa fazer nada , só precisa ter uma boa ideia? Isso é a caninha 51, cara!

Acredita que as utopias foramse de vez?

As utopias que animaram a modernidade? Autopia predominante do século 20, que era o socialismo, acabou.

O desejo de transformação? Essas utopias, como a do socialismo, é do século 19, 20, mas não havia nos séculos 18, 17, 16. A vanguarda também é fenômeno do século 20. Não havia vanguarda no passado. A arte tem 18 mil anos, essas coisas não são imprescindíveis, elas ocorrem por necessidade do momento, da época, da conjuntura.

O que não quer dizer que se não há mais vanguarda acabou a arte, acabou a literatura. E,depois,o seguinte: eu critico a arte dita conceitual ou arte contemporânea, mas as pessoas continuam a pintar, a fazer gravuras, esculturas e há grandes artistas. Eu não tenho dúvida nenhuma de que a pintura vai sobreviver. A quantidade de venda no mundo inteiro é de pintura, quem vai botar em casa essas instalações gigantescas, ou o urinol do Duchamp?

Certa vez, o senhor associou o desencanto dos jovens à ausência de utopia. Aqui na Bahia há uma campanha do governo que diz: “Crack é caixão ou cadeia”. O que pensa sobre isso?

Tem que combater. Não tem sentido legalizar droga, isso é uma bobagem. A droga existe porque tem quem consome a droga. Nenhuma mercadoria sobrevive sem consumidor.

O maior responsável pela permanência do tráfico de drogas é o consumidor.

E não é verdade que todos os consumidores são doentes e coitadinhos. A maior parte dos consumidores é da alta burguesia e da classe média alta, que não é doente coisa nenhuma. Assim como os alcoólatras. Todo mundo que bebe é alcoólatra? Não, a maioria bebe socialmente.

E são esses os maiores responsáveis pelo alto consumo de bebidas alcoólicas.

O que tem que fazer é educar as crianças desde cedo, explicar para elas, é salvar a nova geração, porque o mundo muda todos os dias, está nascendo gente, daqui a dez anos é um adolescente e, em breve, um adulto. Tem que se evitar que se encaminhe para essa maluquice que é a droga, que é autodestrutiva, e quem já está tem que ser tratado, como os que forem doentes. Os outros devem ser reprimidos para parar de usar. Traficantes têm que ser reprimidos e presos porque são elementos nocivos à sociedade. Mas, a salvação está na educação da geração nova.

Na Flip deste ano, o senhor disse que foi um poeta parnasiano na adolescência e que até falava em decassílabos!Na Bahia, ainda há quem acredite que um soneto é a prova dos nove para alguém ser considerado poeta, acredita?

Você pode fazer sonetos e ser uma poesia de alta qualidade e pode fazer sonetos e ser uma bobagem. Uma das coisas que a poesia rimada e metrificada provocava era a ilusão de que se está rimada e metrificada direitinho é poesia. E não era. Não basta estar dentro do tamanho e da medida para ser poesia.

Grande parte da poesia parnasiana brasileira não presta e, no entanto, está tudo bem rimado e metrificado. Poesia não é isso. Agora, você pode fazer poesia rimada e metrificada de alta qualidade.

João Cabral de Melo Neto é um exemplo disso.

Já imaginou se a literatura tivesse seguido o rumo do Finnegan´s Wake, absolutamente ilegível?

A poesia fala fundo, não se esgota. O fato de ter lido um poema não quer dizer que não precise relê-lo.

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