Este é um momento duplamente importante para mim. Como brasileiro e baiano, nascido precisamente na cidade de Salvador da Bahia. Cidade que Carybé adotou. Compartilhar com argentinos algo que é tão nosso e tão de vocês é algo verdadeiramente raro, como se diz por aqui. E como ser diferente?
É mesmo muito difícil de dizer quem mais marca o outro, se a Bahia a Carybé ou se Carybé à Bahia. Tamanha a simbiose entre os dois. Seus painéis, seus quadros, suas esculturas e gradis são hoje inseparáveis da paisagem cotidiana daquela cidade. Simultaneamente, não se consegue admirar a obra de Carybé sem ver nela a Bahia a todo instante representada. A relação de Bernabó com a Bahia foi visceral. Confundem-se indivisivelmente. A ela ele cedeu seu tom. É seu um dos lados mais coloridos da baianidade no século XX. Este foi, pode-se dizer, um caso de amor à primeira vista. A Bahia e Carybé ficaram unidos para sempre. Isto se percebe já na sua chegada por aquelas terras. Tudo nele, desde então, é tão barroco, e tão argentino também. Toda sua vida de cidadão e artista foi um gesto de aproximação entre os dois países. Carybé é um ícone desta amizade e do diálogo entre estas duas culturas. É síntese. Ele não é uma exceção entre os argentinos que se dão, ou se deram ao Brasil, mas é muito emblemático em toda sua obra. É muito impar a sua inserção na terra onde nasceu o Brasil. Lá ele reinou: foi Obá de Xangô.
A arte de Carybé exprime com extraordinária felicidade o encontro entre duas culturas aparentemente tão distantes, a da Argentina e a da Bahia, e mostra como o talento genial de um indivíduo é capaz de promover essas sínteses que parecem impossíveis. A maior parte da obra de Carybé tem como tema a Bahia, sua gente, sua cultura, seu jeito de ser. Depois de andanças pelo mundo, Carybé apaixonou-se pela Bahia e ali se radicou. Tornou-se tão baiano quanto os baianos de nascimento, sem perder sua argentinidade, e sem perder seu espírito largo de cidadão do mundo.
O olho e a mão de Carybé souberam captar o povo baiano em seus gestos, seus movimentos, suas atitudes, com todo o seu encanto e sua graça. Carybé integrou-se à Bahia não apenas através de sua obra artística, que se tornou uma das maiores expressões do modo de ser do povo baiano, mas também através de sua atuação constante em defesa de arte da Bahia. Participou desde o início da criação da Fundação Casa de Jorge Amado. Para ela, ele criou a logomarca, e dela foi seu conselheiro. Orgulhava-se do título de Obá que lhe foi concedido por importante candomblé da Bahia. Pois tinha a dimensão exata desta honraria para a população daquela terra.
Conquistado pela Bahia, onde viveu a maior parte de sua vida, Carybé também a conquistou, recriando-a através dos seus pincéis, e revelando à Bahia aspectos novos de sua própria beleza.
Carybé foi muitos. Sua arte se expandiu pelo continente, e se juntou ao que existe de melhor na literatura das Américas, ilustrando obras de Mário de Andrade, de Walt Whitman, de Gabriel Garcia Márquez, de Rubem Braga, de Pierre Verger, de seu grande amigo Jorge Amado. Carybé expandiu seu mundo pictórico a partir de sua Argentina natal, até chegar à Bahia e ao Caribe quente e ensolarado. Sua arte, assimilando tantas culturas, tornou-se americana em seu sentido mais amplo. A Argentina orgulha-se dele com razão; o Brasil e toda a América também, como não?
Confesso, e peço desculpas por essa referência pessoal, de ter tido a ideia dessa exposição como parte das comemorações do bicentenário da independência da Argentina. Não consegui pensar em algo mais significativo.
Juca Ferreira
Ministro da Cultura
Participação do Leitor
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