“Quando conheci Antonio Charuto, há dois anos, seus olhos expressavam tristeza. Uma tristeza que era o reflexo de anos de dominação, de imposição, de submissão. Hoje, a expressão de seu olhar é cheia de esperança, de alegria. Eles nunca tinham recebido nada, de ninguém, e hoje ser reconhecido pelo Governo Federal por um trabalho que desenvolvem é motivo de grande orgulho, de alegria, da certeza de que não estão sozinhos”. Explica a historiadora potiguar Carla Alberta que trabalha com a comunidade cigana Kalon em Natal (RN). Antonio Charuto é a liderança dessa comunidade.
O projeto da Escola Cigana do Rio Grande do Norte foi um dos 30 selecionadas pelo Prêmio Culturas Ciganas de 2010 e recebeu R$ 10 mil. A escola funciona três dias na semana e alfabetiza crianças e adultos, tem aulas de história do Rio Grande do Norte, cultura cigana e se prepara para, no começo de janeiro, passar a ensinar o Romani, língua dos povos ciganos, para ser uma escola bilingue.
Carla começou a trabalhar com a comunidade por causa de uma monografia de História do Rio Grande do Norte e hoje está trabalhando o mesmo tema para sua tese de mestrado. Essa pesquisa fez com que ela se aproximasse da comunidade, que é fixa na cidade há cerca de 10 anos.
“A escola é muito importante, viver em um mundo globalizado requer ter conhecimento para se estabelecer, ter acesso a negociações financeiras, entre outras coisas. A escola não vai tirar a cultura deles, vai agregar valor”, ressalta a professora.
Ela explica ainda que existem cerca de cinco mil ciganos no Estado, de várias clãs diferentes. A comunidade de Antonio Charuto é composta por aproximadamente seis famílias e que, através desse trabalho que vem desenvolvendo com a comunidade, foi possível incluir sete crianças ciganas em escolas públicas estaduais. “Há um preconceito muito grande e a falta de documentos e de garantias sociais dificulta muito a vida dessas pessoas”.
Carla conseguiu comprar uma máquina de costura e tem planos para ela. “Ela vai ficar na escola à disposição da comunidade para que as mulheres e os homens possam confeccionar roupas e adereços para a venda e a manutenção do rancho”. Mas para ela o melhor de tudo é que o prêmio vai garantir a continuidade da escola. “Antonio estava querendo vender a escola, eles precisam de dinheiro para a subsistência e eu já estava me preparando para fazer um empréstimo para comprá-la e garantir sua continuidade, mas agora, ele me “deu” a casa para continuar à disposição da escola. Com o dinheiro do prêmio eles se mantêm durante seis, sete meses e teremos a garantia de que a escola continuará, pelo menos nesse período”.
Para ela o Prêmio tem uma dimensão muito maior do que a financeira. Ela acredita que é o reconhecimento de que o Brasil é composto pela presença marcante de etnias diferentes. “Não se muda o conceito das pessoas de uma hora para outra, é necessário tempo para que as pessoas mudem. Talvez esse trabalho que a SID/MinC está fazendo só terá efeito a médio prazo, 10, 15 anos”.
“Eu vou para Cuba no começo de janeiro, vou participar de um Congresso de Educação, em Havana, vou apresentar um trabalho sobre a memória e a história dos ciganos no meu Estado e vou dizer que meu governo se preocupa com as minorias étnicas culturais do nosso país. Vou dizer de pé. Eu, como militante social, acredito cegamente na mudança que fazemos, não através de assistencialismo, mas na valorização da cidadania, do pertencimento e da identidade da tão plural sociedade brasileira. Só posso agradecer a um governo que valorizou sim as diferenças sociais. É isso que vou dizer em Cuba quando lá estiver”.
Rachel Mortari (SID/MinC)




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