O nome de batismo é Ildslaine Silva e o de guerra no movimento hip hop, Sharylaine. Desde 1986, quando começou a carreira em parceria com Sweet Lee e o DJ Zulu para formar o grupo Rap Girls, a paulista atua no movimento hip hop como uma representante das mulheres, ativista da cidadania, da juventude e das ações afirmativas por meio da música.
Sua inspiração para entrar no universo musical, e de ativismo do hip hop, veio da produção caseira de um grupo de dançarinos de break de São Paulo, a Nação Zulu, com suas letras sobre política e violência, e que se tornaria fonte de sua paixão: “Também quero fazer música, pois também quero falar”. Desde então ela compõe com “olhar feminino”.
Além de sua participação artística – “cantando (rimando) componho, desenvolvo trabalho vocal, ensaio e preparo as produções de show e musicais” e sua proximidade com o samba e suas escolas, experimentando as fusões possíveis entre os ritmos -, Sharylaine faz política na elaboração de projetos públicos, é organizadora, promotora, palestrante, debatedora, mediadora, facilitadora, representante, conferencista, professora, “inúmeras atividades voltadas para questões da cidadania, juventude, ações afirmativas, violência, cultura, educação, mídia, políticas públicas, sexualidade, mulheres, hip hop”, diz ela.
Uma das pioneiras da participação feminina no hip hop, “este universo tão masculino”, Sharylaine ainda encontra dificuldades para fazer seu registro musical e reclama da falta de gravadoras que invistam em rap feminino: “durante toda a minha trajetória no hip hop não foi possível viver da arte”. Além das dificuldades financeiras típicas do mercado, que impedem prensagem, produção de cópias e divulgação, o fato de ser mulher no hip hop é, para ela, uma grande barreira.
“Outro grande desafio é a questão de ser mulher no hip hop. A mulher ainda é tida como novidade, se tornando invisível e isto não é uma verdade. Percebo que boa parte dos homens do hip hop costumam citar outros homens ignorando a participação e contribuição das mulheres no histórico e trajetória da cultura. Ainda que apresente os mesmos ideais, a mulher caminha em um universo fortemente masculino e não ocupa os mesmos espaços que devem ser compartilhados com equidade. A maioria dos registros musicais de mulheres que atuam ou atuaram no hip hop brasileiro são de participações em discos de coletâneas.”
Transmissão de conhecimento
Para Sharylaine, o hip hop não é apenas uma forma de expressão musical, mas também “a forma mais lúdica de transmitir conhecimento”. Ela acredita que a música é utilizada como instrumento para desenvolver atividades que promovam a troca por meio da arte-educação, nas posses, coletivos e organizações de hip hop, nas comunidades, na realização de semanas de cultura, encontros temáticos que desencadeiam oficinas, palestras e debates, seja em temas pertinentes ao hip hop ou cidadania: ”Tem sido possível acompanhar as gerações seja dentro ou fora da cultura hip hop”.
Como organizadora do Coletivo Minas da Rima desde 1999, ela coloca isso em prática, transmitindo conhecimento e dando visibilidade às mulheres no segmento. Foi uma das idealizadoras junto à ONG Ação Educativa da Semana de Cultura Hip Hop, que em 2010 teve sua décima edição, é articuladora do Fórum Nacional de Mulheres do Hip Hop, atuou para a criação do Projeto Rappers no Instituto da Mulher Negra e foi também uma das proponentes da primeira revista do hip hop no Brasil, a Pode Crê.
Sua música e sua atuação como ativista representam a capacidade de diálogo e participação naturais ao hip hop, proporcionando acesso das comunidades a cultura. Sobre o Prêmio Preto Ghóez, Sharylaine escreveu em sua ficha de inscrição: “Venho tentando efetuar registro integral do trabalho desde 1996, como ainda não foi possível ainda utilizo bases musicais de terceiros. As possibilidades sem o premio diminuem, e só me faz pensar que a saída leva ao investimento de próprio bolso, com as dificuldades de sempre. Existe uma Sharylaine que é historia e que já está perpetuada, por outro lado como continuar na luta e produzir sem subsídios para novos trabalhos?”
Sharylaine é uma das trinta mulheres do movimento hip hop que receberam o Prêmio Preto Ghóez, uma promoção da Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura em parceria com a Secretaria de Cidadania Cultural, Instituto Empreender e a ONG Ação Educativa. Ela receberá R$ 13 mil reais para dar continuidade a seu trabalho.
Leonardo Fontes (SID/MinC)









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