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sexta-feira, 25 de maio de 2012 RSS Ouvidoria Fale com o Ministério
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Exposição dos painéis Guerra e Paz de Cândido Portinari

Discurso do ministro da Cultura, Juca Ferreira, na abertura da exposição

Este é um evento muito rico de significados. Poucas vezes a Arte brasileira produziu uma obra de tamanho impacto quanto os painéis “Guerra e Paz” de Cândido Portinari, finalizados em 1956 para o edifício-sede das Nações Unidas, em Nova York.  Esta obra foi concebida e executada como um presente do governo e do povo brasileiro à entidade internacional que se instalava na cidade norte-americana, em nome da paz entre os povos. A obra de Portinari foi se juntar ao projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e Le Corbusier. Momento especial de afirmação de nossa cultura e de nossa mensagem planetária pela paz e convivência harmoniosa entre todos.

Essa múltipla contribuição brasileira para a sede da ONU foi concretizada durante a presidência de Juscelino Kubitschek, e se inscreve numa longa lista de eventos que marcaram de modo indelével a presença brasileira no cenário internacional da época.

O mundo acabava de emergir de anos de mais uma guerra espantosa, de uma destruição sem precedentes.  O mundo estava traumatizado, e ansiava por paz e por reconstrução.  A ameaça do nazi-fascismo tinha sido repelida ao preço de dezenas de milhões de vítimas.  No processo de reconstrução que se seguiu, era preciso mais do que nunca reafirmar os valores básicos da convivência entre as nações e entre as pessoas.  Era impossível esquecer a guerra. Ela nos obrigava a trabalhar pela paz.

Portinari escolheu este tema para a criação de seus painéis.  E desde então eles estiveram expostos na sede da ONU, como uma lembrança e um alerta permanente. Um farol a denunciar erros do passado e a nos reencaminhar ao futuro desejado por todos.

Durante o tempo em que a obra esteve exposta, o mundo passou por grandes transformações.  A guerra, que com os campos de extermínio e com a bomba atômica parecia ter atingido os limites do horror, desenvolveu novas tecnologias, novas estratégias, novas maneiras de ameaçar o mundo.  A guerra fria que se seguiu nos levou aos limites da possibilidade de extinção total da espécie com um simples suspiro, como vaticinava um poeta daquele tempo.

Mas, hoje – contrariando a todas as forças destrutivas que ainda nos ameaçam – nunca a paz nos pareceu tão próxima.  Já temos condições materiais e intelectuais para tanto. O acúmulo de riquezas e de novas tecnologias dos últimos 50 anos torna possível a realização do sonho de um mundo em que não mais existam a fome, a miséria, o analfabetismo, a doença, a exploração. Enquanto a humanidade sofrer destes males não poderemos dizer que a Paz foi conquistada.

Se estivesse hoje entre nós, o grande Portinari se alegraria em ver o quanto estamos mais próximos de encontrar um mundo de justiça e de paz.  O caminho não é curto nem é fácil, mas existe, e depende de nós.

Se a obra de Portinari é um grito de revolta diante da injustiça, é também um chamado de esperança e de entusiasmo diante da nossa possibilidade de construir um mundo justo. Onde existam riquezas – para todos.  Onde exista liberdade – para todos.  Onde exista a paz – para todos.  Este foi o espírito que animou sua obra artística e sua vida como cidadão brasileiro e cidadão do mundo.

Vale relembrar o que ele disse aos intelectuais argentinos, ao abrir sua exposição em Buenos-Aires, em 1957:

“As coisas comovedoras ferem de morte o artista e sua única salvação é retransmitir a mensagem que recebe. Pergunto-me: Quais são as coisas comovedoras neste mundo  de hoje? Não são por acaso as guerras, as tragédias provocadas pelas injustiças, pela desigualdade e pela fome? Haverá na natureza algo que grite mais alto ao coração do que isto?”

A arte de Portinari nos revela a nós mesmos.  Diante da impressionante quantidade de trabalhos desse artista que teve pouco mais de meio século de vida, temos a sensação de estar atravessando um túnel do tempo em que presenciamos a história da espécie humana, com seus trabalhos e suas alegrias, seus dramas e seus renascimentos, seus conflitos e sua perpétua esperança.  Ver Portinari nos lembra que nosso destino pessoal é o destino de todos.  Sua arte faz um indivíduo se sentir mais como um ser humano do que como uma ilha; menos isolado, mais verdadeiro.  Cada personagem retratado por Portinari é ao mesmo tempo a humanidade inteira e uma pessoa que só existiu uma única vez.

Talvez o Homem nunca possa extinguir em definitivo a guerra.  Mas que isto não nos impeça de trabalhar pela paz, de ter a paz como um objetivo sempre real e próximo, e assim, pouco a pouco, mas de modo constante, expandir o mundo da paz.

John Lennon, que há 30 anos nos deixou, atingido pela violência, não estava sozinho na luta por esse mundo. “Deem uma chance à paz”, dizia ele.  A paz não é um estado de repouso permanente e de lazer preguiçoso.  A paz representa trabalho, esforço, desafios sem conta, um trabalho de construção. Somente na paz poderemos arregaçar as mangas e enfrentar esses desafios.

Durante os próximos sete dias o Rio de Janeiro terá a oportunidade de refletir, diante da obra do Mestre, e em um momento tão especial para esta cidade, sobre o nosso caminhar nestes anos que separam 2010 de 1956, e sobre o nosso apelo pela paz. Depois, a obra viajará para São Paulo, e em seguida por outros países, antes de retornar para seu lugar em Nova York. Aí o mundo voltará a ouvir o nome de Cândido Portinari.  Através dele e do seu talento de artista, o mundo ouvirá mais uma vez falar do Brasil.  E ouvirá a mensagem que o Brasil sempre trouxe e sempre trará para o colóquio das nações: a de que é possível, sim, um mundo onde existam liberdade, riquezas, justiça social e paz, mas este mundo só será possível no dia em que isto existir para todos.

Juca Ferreira
Ministro de Estado da Cultura

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