JUCA FERREIRA
MINISTRO da CULTURA
Luiz Gonzaga, através da sua música, deu origem a uma das mais significativas representações da cultura brasileira. Sua música e o baião, sua mais expressiva criação, revolucionaram o imaginário do povo brasileiro.
Um universo ímpar de significações que alargou as fronteiras da nossa identidade nacional, incluindo o povo nordestino no imaginário do Brasil.
Há quem diga que o Nordeste, tal qual o compreendemos, foi uma invenção de Seu Lua.
A grandeza de sua obra fez dele um dos representantes mais ilustres da cultura brasileira, pelo que dela ele soube traduzir e o que a ela soube, com sua genialidade, acrescentar.
Ainda jovem, tornou-se um símbolo do País inteiro. Entre meados das décadas de 1940 e 1950, o baião foi o estilo musical mais tocado no Brasil. O baião é, reconhecidamente, tanto quanto o samba, uma expressão brasileira, por excelência. Em qualquer parte deste planeta. E Luiz Gonzaga, o maior ídolo da música popular brasileira.
Desde então, nunca mais deixou de ser ouvido, tocado e composto.
Quando me encontrava exilado, tinha em Luiz Gonzaga a referência mais viva e contagiante do Brasil. Confesso que ouvir suas canções era um sentimento perturbador, me descolava da vida na Suécia, onde eu havia encontrado acolhida, era feliz e razoavelmente integrado. Lembranças da minha infância, saudades do que havia deixado para trás, dor do exílio e banzo. Frequentemente choramingava, solitário de nostalgia da terra distante.
Luiz Gonzaga foi uma dádiva para nossa formação cultural em momento de grande expansão urbana. Gonzaga surgiu para o Brasil no Rio de Janeiro num momento privilegiado. A indústria do disco e a rede radiofônica já tinham a maturidade tecnológica e cultural para entender um talento como o seu, capaz de unir o País de ponta a ponta, com alto nível de qualidade e elaboração.
Luiz urbanizou sua tradição, predominantemente rural e interiorana. Como todo grande artista, foi capaz de traduzir o seu mundo, universalizando-o; capaz de absorver em seu processo criativo toda a vivência cultural dos nordestinos e torná-la objeto de admiração e de afeto para milhões de brasileiros.
O Brasil é um país tão extenso e tão diverso que precisa ser o tempo todo apresentado a si mesmo. Foi isso o que Seu Luiz fez, apresentou ao Brasil um Nordeste que o Brasil desconhecia.
Um mundo cheio de novidades, dores e belezas. Poucos terão cantado tão bemquanto ele e seus parceiros os dramas do povo nordestino; mas, acima de tudo, foi a alegria de viver do nordestino que ele mais intensamente nos revelou. Muitos brasileiros aprenderam a amar e respeitar o Nordeste depois de serem cativados pela rara beleza da voz confiante de Gonzagão, e pelo seu sorriso, exprimindo uma inabalável alegria de viver.
Gonzaga surgiu como representante típico da massa cabocla do sertão. Destinado a plantar no coração da metrópole as sonoridades, os versos e a memória coletiva de um povo que nunca sonhava em ir para a cidade, e só o fazia quando o seu mundo começava a se acabar, pelo latifúndio, pela seca e falta de oportunidade. Como o presidente Lula. Outro ilustre brasileiro oriundo dessa tragédia nordestina.
Luiz: afirmação cultural cheia de autoestima de um migrante em terra alheia, determinado a orgulhar-se daquilo que lhe diziam ser motivo de constrangimento. Afirmação positiva de uma cultura que era vista sempre com um viés pejorativo. Afirmação do artista visto e ouvido por multidões, e capaz de dizer a essas multidões que não têm motivo para se envergonhar do que são.
Seu Luiz apresentou ao Brasil um Nordeste que o Brasil desconhecia.
Um mundo cheio de novidades, dores e belezas.
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