Fechado por pelo menos 90 dias e ainda sem perspectiva de reforma, o templo do Festival de Cinema mais importante do país inspira personalidades a propor soluções
Yale Gontijo
Iano Andrade/CB/D.A Press
Entra governo, sai governo. Mudam as administrações e só uma coisa permanece imutável no cenário cultural brasiliense: a deterioração do espaço físico e cultural do Cine Brasília, o mais antigo da cidade. Sede do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o espaço firmou-se, na cultura cinematográfica do Brasil, como o templo do cinema brasileiro moderno. Nos últimos anos, porém, o palco por onde passaram tantas estrelas da cinematografia nacional tem perdido prestígio, assim como a estrutura física sofre os efeitos da decadência material.
Muitas alternativas de recuperação do cinema têm sido discutidas nos últimos anos. Numa delas, a gestão do espaço passaria a ser compartilhada entre Ministério da Cultura (MinC) e Governo do Distrito Federal (GDF), com a colaboração da Cinemateca Brasileira, com sede em São Paulo. O acordo carece de negociação entre as novas administrações federal e regional. O Correio relacionou 10 visões da comunidade cinematográfica brasiliense e nacional sobre a reforma do cinema mais tradicional da capital federal, fechado por pelo menos 90 dias, sem uma expectativa concreta de reforma.
Edilson Rodrigues/CB/D.A Press – 18/6/09
“O Cine Brasília está deteriorado do ponto de vista físico e material. Ele precisa de um projeto. Não tenho uma fórmula para tornar o cinema frequentável e fazer com que a programação se sustente e não fique ao sabor do acaso.
Qualquer um que se interesse pela cultura da cidade tem por obrigação cobrar a manutenção do espaço. Ele tem de ser olhado como uma peça inalienável. O cinema tal como ele é deveria ter o caráter reforçado. É preciso restaurar esse espírito.”
Vladimir Carvalho, documentarista
“A inclusão de galerias de lojas costuma dar certo. O Estação Botafogo, no Rio de Janeiro, é assim. Mas é isso que vai atrair o público? Acho que não. O que vai atrair o público é boa programação com boa projeção de som e imagem. Muito mais do que a questão física. A Secretaria de Cultura tem de ter coragem para montar uma comissão curatorial do Cine Brasília.”
Murilo Grossi, ator brasiliense
“No Cine Brasília acontece o ponto máximo da celebração do cinema nacional. É inadmissível que a projeção seja falha. Estamos no meio de uma transição para o digital. Ano que vem, não sei se haverá filmes em película para ser inscritos no festival. É uma sala grande e precisará de um projetor digital de qualidade. É preciso encontrar uma boa consultoria, para que não seja adotado um modelo sem qualidade. Isso gera reflexos no festival como um todo e tem de ser feito de forma cautelosa.”
Dirceu Lustosa, cineasta e técnico cinematográfico
“O Cine Brasília é único no Brasil, pelo tamanho e pela arquitetura. Simbolicamente, ele tem um valor inestimável. Não significa que não possam ser feitas algumas atualizações, sem alterar a essência do espaço. É preciso modernizar de forma a atender a população, tanto na programação quanto nos serviços que podem ser oferecidos. A prerrogativa maior é do GDF. A reestruturação do espaço seria uma bela iniciativa cultural do governo nesse começo de gestão. O protagonismo local é muito importante.”
Alfredo Manevy, ex-secretário executivo do Ministério da Cultura
“Falar das reformas estruturais é até óbvio. Mas o cinema poderia se transformar num centro cultural. Um plano de reforma que contivesse café, livraria, uma DVDteca com filmes de Brasília que as pessoas possam comprar. Tornar o espaço multidisciplinar mesmo. A programação poderia ficar por conta de um conselho gestor, formando parcerias com outros cinemas do Brasil e com embaixadas. Poderia se pensar numa Fundação Cine Brasília e ele seria autogerido. Existem vários caminhos, só é necessário sistematizar. É de poder público para poder público.”
Adriana de Andrade, cineasta brasiliense
“A gente perdeu muito com o fechamento do Cine Academia, que, mesmo com algumas críticas, era um espaço legal para ver filmes. Lógico que o Cine Brasília não vai abarcar tudo. A sensação é que o cinema só acontece uma vez por ano, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Esse astral poderia ter o ano inteiro, com mostras e a criação de uma sala digital. Seria o começo de uma nova alternativa de cinema para Brasília. O que é mais fácil de acontecer é um minicomplexo de cinema. É preciso pensar num modelo híbrido e criar atrativos para que as coisas aconteçam.”
Jimi Figueiredo, cineasta brasiliense
“A parceria do Cine Brasília com a Cinemateca Brasileira abre uma perspectiva de forma animadora. A Cinemateca tem uma preocupação com a qualidade de projeção, que há anos a Secretaria de Cultura não consegue atender. A dificuldade do cinema para ter uma programação interessante acontece porque os filmes não têm bilheteria. As possibilidades são outras e atendem um interesse público de forma mais elaborada. Não basta a reforma do espaço. A restauração conceitual, com possibilidade de interação antes e depois da sessão, pode criar um ambiente pulsante.”
João Paulo Procópio, presidente da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV)
“O Cine Brasília tem uma vantagem sobre uma série de outras salas do país. As pessoas devem prezar pela presença desse cinema. Fisicamente, é uma sala rara no Brasil: o espaço é grande, a tela é grande. É o modelo tradicional antigo de se ver um filme. Adoro e respeito o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, mas ele precisa receber longas digitais, porque é o que está sendo feito no cinema atualmente. O transfer (passagem dos filmes de digitais para películas) virou quase o pagamento de uma taxa para entrar no festival. A obra tem de ser vista pelo que ela é.”
Kléber Mendonça, cineasta pernambucano
“O Cine Brasília tem um atrativo que, ao mesmo tempo, joga contra o espaço. Ele é muito grande para determinados filmes. Essa noção de pequeno ou grande foi resolvida, no mundo inteiro, com o modelo multiplex. Pequenas salas anexas mudariam o espaço completamente. Dariam uma vida, uma modificação. Ter mais de uma sala faz uma diferença enorme. Numa sala grande, é possível colocar uma filme que esteja atraindo público e outras salas ficariam destinadas a filmes médios. O risco de programar é menor quando se tem mais salas.”
Adhemar de Oliveira, distribuidor da Espaço Filmes, em São Paulo
“Brasília é um dos poucos lugares do Brasil que mantêm um cinema com uma sala enorme. Esse espírito multiplex, conceito neocapitalista de transformar a sala de cinema numa coisa minúscula, vai totalmente contra o conceito original. Ele funciona como uma praça com muita circulação em volta. Tem esse sentido saído de uma arquitetura contemporânea libertária. Agora, é preciso recuperar o pulmão da cidade. Deveria ter mais eventos pontuais, quatro ou cinco por ano, com o peso do Festival de Brasília. É minha opinião. Não sei se vai contra o contexto local.”
Carlos Reichenbach, cineasta
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