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Direitos Autorais

Discurso da Ministra Ana de Hollanda na abertura do Seminário sobre a Modernização da Lei de Direitos Autorais

Minhas amigas e meus amigos…

É com imensa satisfação que me encontro com todos vocês aqui, hoje, no momento em que o Ministério da Cultura vai finalizar a discussão de uma proposta de legislação acerca de direitos autorais, antes de prepará-la para o envio à Casa Civil que a encaminhará ao Congresso Nacional.

Não preciso dizer que este é um tema que temos de tratar com muito cuidado e muita atenção.

O princípio do direito autoral foi uma conquista do trabalhador das artes e da cultura.

O cineasta Cacá Diegues, aliás, escreveu um artigo muito lúcido sobre o assunto, colocando as coisas nos seus devidos lugares.

Ele nos lembra o que era de fato o mecenato antigo, com senhores fazendo encomendas aos artistas, determinando o que eles deveriam ou não deveriam fazer. Aquele era um mundo de dependência e submissão. Um mundo em que o criador não era livre para criar. Não era livre para ditar as linhas, escolher as cores e traçar as formas do que desejasse fazer.

A conquista da autonomia do trabalhador criativo não aconteceu de uma hora para outra. Foi uma emancipação gradual da figura do criador, que assim pôde estabelecer uma nova relação com o mundo, com o conjunto da sociedade.

É verdade que, no Renascimento, assistimos à configuração de uma esfera particular de produtos, que passaram a ser classificados na categoria do “belo”. Mas isto ainda não é a autonomia. As encomendas e as ordens continuam. Para lembrar uma expressão popular, o criador ainda não é dono do seu próprio nariz. Ainda não dita para si mesmo as regras do seu próprio fazer.

A autonomia só vai ser conquistada tempos depois, quando o trabalho criativo se descola do âmbito da vida religiosa, dos desmandos do mecenato e se distingue entre os demais fazeres mundanos. Quando o criador se vê e passa a ser visto como um produtor de objetos particulares que apresenta ao mercado.

Sim: é na lógica do mercado, na lei da oferta e da procura, no mundo mais difícil do jogo econômico, da remuneração da força de trabalho, que o criador conquista a sua independência, demarca o seu território específico, conquista a sua autonomia, veste as suas próprias vestes.

A autonomia se impõe quando o criador consegue viver de sua própria criação. E o fundamento objetivo dessa autonomia que se conquista está, evidentemente, no direito autoral. Na afirmação social do trabalhador criativo, quando se estabelece o direito de propriedade sobre o que ele faz, sobre o que lhe é próprio.

Segundo os estudiosos do assunto, esta conquista está relacionada com a invenção da imprensa. Foi no processo da expansão do comércio de livros que surgiu a necessidade de se criar um sistema de proteção da obra e de seu autor. E o marco, nesse caminho, está no “Estatuto” da rainha Ana, de 1710, primeira lei que realmente assegurou e garantiu os direitos autorais.

Mas o fato é que só quando se torna senhor de sua própria obra é que o trabalhador criativo se torna senhor de si mesmo. Esta é a importância histórica e sociológica da constituição do princípio do direito autoral.

Mas é claro que, dos tempos da rainha Ana para cá, o mundo mudou demais. Especialmente, com o surgimento das chamadas novas tecnologias da inteligência ou do espírito. E estas mudanças tecnológicas têm suas repercussões, também, no terreno do direito autoral.

Com o aparecimento dos meios digitais, com a facilidade atual de acesso a conteúdos pelas redes de internet, impõe-se a necessidade de uma legislação adequada à nova realidade tecnológica e cultural que se configurou. A necessidade de uma lei que permita o acesso ao rico patrimônio e à multiplicidade cultural, desejo de todo criador, assim como dos consumidores, mas que, ao mesmo tempo, respeite o direito do autor.

A questão não é simples. E é por isso mesmo que vem provocando polêmicas e debates calorosos em diversos países. Seminários e congressos internacionais promovem a reflexão em busca de soluções equilibradas para este novo momento.

Um outro ponto que não podemos deixar de abordar é o da obra compartilhada, criada no ambiente da internet. É uma forma que as novas gerações vêm usando com frequência. O Ministério da Cultura apóia e incentiva o compartilhamento e a troca de arquivos disponibilizados para tal, principalmente através dos pontos de cultura digitais, onde a criação coletiva se exercita livremente.

Em síntese, o autor é senhor de sua obra e deseja que ela circule. Este é o sentido maior que deve nortear a modernização da Lei de Direitos Autorais. E tenho a mais absoluta certeza de que todos nós, aqui, temos plena consciência disso.

Conto com todos, portanto. Com toda a energia, com toda a serenidade, com toda a dedicação.

Muito obrigada.

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7 comentários

  • Tania Marques

    1 de junho de 2011

    Prezada Ministra,

    Ao ler seu discurso sobre os direitos autorais fiquei impressionada com a forma distorcida com que a senhora enxerga o artista e a produção cultural. Lendo o comentário do Pedro Germano Leal neste espaço, percebo que ele deu uma verdadeira aula sobre a cultura e o artista à nossa Ministra da Cultura. Falou praticamente tudo. Complementando, apenas gostaria lembrá-la, ministra, que a complexidade estética da arte, sua criatividade e ousadia, sua proposta inovadora e intelectual, não se submetem e nem são frutos do mercado. Pelo contrário, a cultura e a arte que interessa ao mercado é aquela produzida a partir de técnicas e fórmulas padronizadas, testadas e aprovadas pela indústria cultural. E pressupõe um público passivo e submisso, predisposto à manipulação dos meios de comunicação, que consome sem pensar e sem refletir. E até onde entendo, à arte também cabe, além de embelezar o mundo, desafiá-lo e colocá-lo em choque frente suas próprias contradições.

  • Pedro Germano Leal

    1 de junho de 2011

    Poderia esperar um texto desta ordem de alguém que não o menor interesse sobre o tema, mas para mim, como Cidadão Brasileiro, é um insulto ler esta triste manifestação da Ministra que não tem outra razão de existir senão tentar justificar o injustificável: a mudança da Lei dos Direitos Autorais por pressão do lobby comandado pelo ECAD, a que se sujeitou a Ministra.

    Sem mais por agora, e sinceramente estarrecido;

    Pedro Germano Leal
    School of Modern Languages and Cultures
    College of Arts
    University of Glasgow

  • Pedro Germano Leal

    1 de junho de 2011

    6. Leio novamente seu texto, e soa-me ainda mais impróprio e leigo. É realmente preocupante que uma Ministra da Cultura entenda tão pouco de seu objeto. Num simples texto como esse traça um panorama torto do que é Cultura, do que é produção cultural, do que é autonomia artística, e do que é História da Arte, condenando todos aqueles artistas anteriores a noção de ‘direitos autorais’ e ‘mercado’, entre eles gênios do porte de Homero, Horácio, Hrabranus Maurus, Bach, Da Vinci, Shakespeare, Camões e Aleijadinho a pecha de ‘não-autônomos’; e, ao mesmo tempo, dando àqueles que viveram MARGINALIZADOS pelo mercado e direitos autorais – e muitas vezes condenados a miséria – o papel de vítimas do próprio ‘insucesso’ ou incompetência. Um desrespeito absoluto para com os trabalhadores da Cultura e Artistas do país;
    [CONTINUA]

  • Pedro Germano Leal

    1 de junho de 2011

    4. O desenho da política cultural no Brasil anterior ao Governo Lula é um exemplo disso: pela Lei Rouanet o Estado se tornou o financiador daquilo que bancos (e seus ‘institutos culturais’ e empreiteiras determinassem ‘obras artísticas’. É um sistema que não necessariamente libertou o artista – antes, o condenou. Condenou-o a ter que escolher entre se sujeitar aos interesses inaptos de quem controla o capital, ao invés de gozar de sua autonomia;
    5. Seu irmão, Ministra, só produziu em função do mercado? Mesmo durante a Ditadura Militar? E a Sra. Ministra, não ascendeu nacionalmente em sua carreira artística porque não agradou ao mercado, ou porque não teve qualidade artística?
    [CONTINUA]

  • Pedro Germano Leal

    1 de junho de 2011

    2. O ‘mercado’, apresentado pela Ministra – e qualquer neoliberal – como a salvação da ‘autonomia do artista’ ignorou sistematicamente, sabemos, muito do melhor que foi produzido pela Cultura Brasileira e mundial. Cartola em vida não vendeu tantos CDs quanto ‘Restart’. Este exemplo bastaria, e muitos outros existem. A verdade é que o mercado é senhor tão autoritário – ou pior – que o mecenas ou a própria igreja apontada pela Ministra como um algoz;
    3. E por que? Ao contrário de trabalhar para mecenas como os Medici florentinos, de vasta cultura e ao mesmo tempo visionários, um artista contemporâneo está atrelado às decisões de instituições que tem como interesse restrito o lucro, e frequentemente comandadas por quem não sabe nada de arte. Como CEO de bancos – sejamos francos;

  • Pedro Germano Leal

    1 de junho de 2011

    Eu realmente espero, pelo bem da democracia no país, que meu comentário seja liberado, uma vez que não contrariará nenhum dos itens elencados nas ‘Regras para comentários’.

    Ministra Ana de Hollanda,

    Eu sou um estudioso de História da Arte e da Cultura. E permita-me a objetividade: é estarrecedor o ‘resumo’ que você fez em seu texto. Dizer que a autonomia artística só foi conquistada com o mercado é erro crasso. Permita-me elencar algumas razões:

    1. Objetos considerados artísticos ou culturais não foram necessariamente produzidos, ao longo da História e mesmo hoje, em razão do ‘mercado’. Sugerir o contrário implica, por força da Lógica, que as inovações artísticas anteriores à noção de mercado não foram autonomas, e isto não é verdade. Quantos ‘artistas’ (na acepção que a Ministra utiliza) foram considerados revolucionários justamente por romper com os paradigmas de seu tempo? Enumerá-los é até mesmo inviável;
    [CONTINUA]

  • Carlos Henrique Machado

    31 de maio de 2011

    Ode ao burguês

    Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
    o burguês-burguês!
    A digestão bem-feita de São Paulo!
    O homem-curva! o homem-nádegas!
    O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
    é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

    Eu insulto as aristocracias cautelosas!
    Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
    que vivem dentro de muros sem pulos;
    e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
    para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
    e tocam os “Printemps” com as unhas!

    Eu insulto o burguês-funesto!
    O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
    Fora os que algarismam os amanhãs!
    Olha a vida dos nossos setembros!
    Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
    Mas à chuva dos rosais
    o èxtase fará sempre Sol!

    Morte à gordura!
    Morte às adiposidades cerebrais!
    Morte ao burguês-mensal!
    ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
    Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
    “–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
    –Um colar… –Conto e quinhentos!!!
    Mas nós morr

    RESPOSTA: A postagem acima contém a reprodução de trechos do Poema Ode ao Burguês, da obra Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade.