Senhor Ministro da Educação e da Cultura do Uruguai, Ricardo Ehrlich
Senhor Ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, Aloísio Mercadante
Senhor Embaixador do Brasil no Uruguai, João Carlos de Souza Gomes
Senhores Secretários e Presidentes de Institutos e Fundações
Demais autoridades presentes
Senhoras e Senhores,
Em 30 de maio deste ano, tive a honra de vir ao Uruguai acompanhando a Presidenta Dilma Rousseff em sua primeira visita oficial a este país. Foi para mim ocasião de júbilo tornar a estar em Montevidéu, dessa vez na qualidade de Ministra da Cultura do Brasil, porém ainda maior foi o sentimento da missão que nos tomou a todos que estávamos na comitiva presidencial. Mais do que uma corriqueira visita de trabalho a um país amigo e a um importante parceiro comercial, o momento se nos apresentou como um encontro de destinos, como uma reunião de povos e culturas irmãs, como o momento mágico em que os sonhos, os ideais e as lutas por um futuro melhor permitem, enfim, moldar a realidade.
Naquela data, firmamos, o Ministro Ricardo Ehrlich, e eu, um importante documento: o “Protocolo de Intenções para o Desenvolvimento de Ações Conjuntas no Âmbito da Cultura”. O texto estabelece uma pauta bastante vasta para o aprofundamento de nossas relações bilaterais, que vai do intercâmbio de expressões artísticas às ações conjuntas para a promoção da diversidade cultural; do fortalecimento das iniciativas conjuntas na área da fronteira, à valorização da cultura afrodescendente; do fomento à economia criativa, à construção de parcerias nas áreas de audiovisual, patrimônio, museus e bibliotecas.
Não basta, contudo, firmar um Protocolo – é preciso colocá-lo em prática e traduzir em ações concretas as nossas aspirações de aproximar ainda mais Brasil e Uruguai no plano da cultura. Por isso, passados dois meses, juntei-me ao Ministro Mercadante nesta nova visita, trazendo comigo os representantes de importantes unidades do Ministério da Cultura do Brasil. Estamos aqui para aprofundar o diálogo bilateral e dar início aos programas e ações que, conjuntamente, iremos desenvolver nos próximos anos. Como diria Eduardo Galeano, mestre e luminar de tantos que aqui estão:
“Somos lo que hacemos y sobre todo lo que hacemos para cambiar lo que somos”.
Por certo, não temos a pretensão de supor este Encontro o marco zero de nossas relações culturais. As relações entre nossos povos – unidos por uma vasta fronteira comum, pela terra do pampa e pela cultura dos gauchos – têm uma história de três séculos. Para além das rivalidades paroquiais ou dos momentos de eventual tensão, essa história aponta para um destino comum, para uma inquestionável fraternidade. Ao olhar generoso, tudo nos une, nada nos separa. Nossas diferenças nada mais são do que pluralismo salutar, diversidade instigante, beleza a ser compartilhada. Juntos, somos mais fortes, mais criativos e mais felizes.
Nada expressa isso melhor do que a dimensão singular de tantos homens e mulheres que, por escolha própria ou premidos por circunstâncias adversas, encontraram no outro lado da fronteira abrigo e oportunidades. Em meados do século XIX, o autor do hino nacional uruguaio, Francisco Acuña de Figueroa, por um bom tempo teve de viver no Rio de Janeiro. O caminho inverso foi percorrido por nosso querido Darcy Ribeiro, e por tantos outros brasileiros, em distintos momentos do século passado. Hoje, felizmente, temos um número crescente de artistas, pensadores e profissionais que podem, livremente, construir sua vida entre os dois espaços nacionais. Mais ainda, vemos alguns de nossos melhores profissionais, tais como o fotógrafo uruguaio César Charlone e o diretor brasileiro Fernando Meirelles, ou o compositor platense Jorge Drexler e o diretor carioca Walter Moreira Salles, em estreita colaboração para alcançar o êxito no cenário global.
Ainda assim, muito podemos fazer para aprofundar nossas relações bilaterais e para criar uma verdadeira dinâmica de integração na área da cultura. Nosso intercâmbio no mundo das artes é pequeno e nosso conhecimento mútuo tem muito a avançar, seja no que diz respeito aos grandes clássicos, seja no que se refere à produção atual. Poucos percebem os paralelos entre as telas históricas do mestre uruguaio Juan Manuel Blanes e a pintura acadêmica dos brasileiros Vitor Meirelles e Pedro Américo, assim como pouco se estuda as relações entre o construtivismo de Joaquín Torres García e a arte abstrata de Bandeira, Volpi e Milton da Costa. São também restritas as trocas entre o mundo do tango, das milongas e do candombe, e o universo do samba, do maracatu e do baião. Precisamos definitivamente nos conhecer melhor e mais a fundo. Para tal, será preciso haver um apoio direto das instâncias governamentais ao intercâmbio artístico, uma vez que o mercado – por si só – nos tende a manter afastados uns dos outros e atrelados exclusivamente à produção cultural europeia e norte-americana.
Um excelente caminho de entrada será apoiarmos o grande potencial de trocas que existe nas comunidades de fronteira, onde a vontade política da integração corresponde ao mais profundo desejo da sociedade. A iniciativa exitosa das escolas bilingues de fronteira, promovida por nossos Ministérios da Educação, tem mostrado o quanto podemos avançar, investindo na mútua compreensão e no fortalecimento do estudo do espanhol e do português. Precisamos agora complementar essa iniciativa com um investimento significativo em equipamentos culturais e em programas de cidadania cultural, de economia criativa e de fomento à diversidade.
Outra área que merece atenção especial está na cultura afrodescendente. Ainda que minoritária, a comunidade afro do Uruguai possui um valoroso histórico de lutas, de tradições culturais e mesmo, para nossa grande tristeza, de conquistas futebolísticas, bastando lembrar que a equipe uruguaia de 1950 tinha como capitão Obdulio Varela, “el negro jefe”.
Esforço similar faremos nas áreas do patrimônio cultural e dos museus, em que tanto temos a ganhar com a soma de esforços. Potencial igualmente significativo existe no setor audiovisual, seja no segmento do cinema, seja nas áreas das novas mídias e da animação. Ressalto, por fim, o setor do livro e da literatura, onde precisamos avançar no sentido de um maior intercâmbio e do maior contato entre as novas gerações de escritores e leitores.
Dirigentes, autoridades presentes, senhoras e senhores,
Já setenta e cinco anos se vão desde que meu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, em seu capítulo sobre “O semeador e o ladrilhador”, buscou sondar as Raízes do Brasil a partir de um contraste entre o espírito idealista do mundo hispânico – com seu amor pela codificação, pela simetria e pela abstração –, e o realismo prático dos lusitanos, com sua vocação para o pragmatismo, tendente a manifestar-se em uma adaptabilidade desapaixonada, conservadora, e até um tanto “desleixada”, às contingências humanas e naturais.
O que estava se ressaltando era a tradição da América hispânica em ordenar a natureza e em valorizar a vida intelectual e a boa formação universitária, em contraste com o Brasil e seu comodismo atávico, seu desapego às normas e sua resistência a arquitetar o futuro. O cenário hoje é outro. Podemos dizer que a lição foi aprendida e que, nestas últimas sete décadas e meia, o Brasil soube responder a esse desafio, encontrando o caminho do planejamento e do desenvolvimento, virtudes tão bem exemplificadas no Ministério conduzido por meu colega Aloísio Mercadante.
Do ponto de vista da Cultura, no entanto, prefiro ressaltar o que entendo ser uma feliz convergência entre o que de melhor havia em matrizes ibéricas, devidamente temperadas pelas influências indígenas e africanas. De um lado, o Brasil modernizou-se, urbanizou-se e tornou-se mais eficiente, embora se reconheça ainda a alma cordial de seu povo. De outro lado, também a América hispânica, e em especial nossos vizinhos sul-americanos, souberam avançar modernidade adentro, incorporando ainda mais calor humano, solidariedade e alegria a seu modo de ser. Ambos amadurecemos – e nada melhor espelha essa trajetória do que o sucesso do antigo ideal da integração na realidade concreta do MERCOSUL.
Mais do que a sede de nosso Bloco Regional, o Uruguai incorpora em seu ethos a própria ideia da integração latino-americana e da busca por um desenvolvimento socialmente equilibrado. Nada melhor do que este momento em que se comemora o Bicentenário do Processo de Independência para adicionarmos ao esforço de integração uma ênfase propriamente cultural. Mais do que nunca, é preciso acreditar em nosso destino comum e em nossa capacidade de torná-lo realidade. Esta é a convicção da Presidenta Dilma Rousseff, que explicitamente incumbiu-me de levá-la adiante. Pois, como disse Mário Benedetti, em um de seus mais famosos poemas:
“Si Diós fuera mujer
Es posible que agnósticos y ateos
No dijéramos no con la cabeza
Y dijéramos sí con las entrañas”.
Muito obrigada.
Participação do Leitor
Espaço reservado exclusivamente para comentários acerca da matéria ou publicação veiculada nesta página. Solicitação de informações ou dúvidas devem ser encaminhadas por meio do Fale com o Ministério; reclamações ou denúncias devem ser dirigidas para Ouvidoria.