A Capela de Nossa Senhora das Mercês, em São Luiz do Paraitinga, cidade do Vale do Paraíba, em São Paulo, foi reaberta neste domingo (25), durante cerimônia que contou com a presença da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, do presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Luiz Fernando de Almeida, da prefeita do município, Ana Lúcia Bilard, do bispo de Taubaté, Dom João Carlos Rohden, e da população do município.
A reabertura do templo acontece no período de festa que ocorre na cidade em comemoração ao Dia de Nossa Senhora das Mercês (24 de setembro) e durante todo o domingo houve diversas atividades, como desfile de bonecos gigantes, missas e outras atrações.
Fundada em 1814, a Capela – um dos marcos da cidade - foi destruída pela enchente de janeiro de 2010, assim como praticamente todo o centro histórico de São Luiz do Paraitinga. Os trabalhos de reconstrução ficaram sob a supervisão do Iphan/MinC, que investiu nas obras recursos de R$ 1,5 milhão, provenientes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas.
Memorial
A ministra Ana e o presidente do Iphan visitaram, inicialmente, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a única que ficou de pé durante a enchente e que tornou-se abrigo e centro coletor de alimentos à época. Mas o local também precisou de ações emergenciais do Iphan no telhado, em estabilização da estrutura e na parte elétrica. A comitiva deslocou-se a pé até a Igreja Matriz de São Luis de Tolosa que teve toda a área do templo completamente destruída e está sendo recuperada pelo Iphan.
A ministra participou depois da abertura da Exposição do Memorial da Reconstrução, na sede do Instituto Elpídio dos Santos. O local, que recebeu o nome do músico local que criou a clássica Casinha Branca,também foi reconstruído por causa da enchente. A mostra retrata a cheia que destruiu parte da cidade em 2010 e todo o processo de reconstrução, embora as obras ainda não tenham terminado.
Já estão em andamento os processos para a restauração da Igreja do Rosário, de outras construções do Centro Histórico e da Casa de Oswaldo Cruz, onde a exposição inaugurada ficará permanentemente, assim que as obras de reconstrução estiverem concluídas. Esse conjunto de ações está incluído no orçamento de R$ 10 milhões disponibilizados pelo governo federal e Ministério da Cultura, somando-se mais R$ 1 milhão, doados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
“Vários amigos músicos, seríssimos, me falavam havia bastante tempo de São Luiz, da qualidade do seu Carnaval.A cidade tem uma tradição cultural muito forte, tem pontos de cultura. Foi muito impactante ver as imagens da Igreja Matriz desabando”, afirmou a ministra durante a visita a São Luiz de Paraitinga. Ela anunciou a criação, na cidade histórica, de um escritório do Iphan. A ministra Ana também lembrou que “neste momento, estamos criando a Secretaria da Economia Criativa porque estamos pensando na sustentabilidade. E isso é importante para São Luiz porque é necessário que sua riqueza cultural seja sustentável”.
“Este é o primeiro monumento que está sendo recuperado e entregue à população.Esta é uma das poucas cidades do Brasil que estão sendo pautadas pelo turismo cultural”, anunciou o presidente do Iphan Luiz Fernando de Almeida. “Tive a emoção de estar aqui exatamente quando aconteceu a tragédia. [As pessoas que se aplicaram na reconstrução] estavam afirmando a Cultura como fator de agregação social. Isso, num momento em que a Cultura, além disso, mostra crescentemente uma dimensão econômica muito importante”, acrescentou.
“Para uma reconstrução como esta, não basta só dinheiro. É preciso estar presente. Em todos os momentos só vi alegria nesta reconstituição. Nem parece que houve enchente”, observou a prefeita da município, Ana Lúcia Bilard.
Para Dom João Carlos Rohden “a entrega da Capela mostrou que existe a verdade da reconstrução.O Estado veio ao encontro e disse: “Estamos aí” e muitas mãos invisíveis ajudaram a reconstruir esta capela”, afirmou emocionado o bispo de Taubaté.
Resgate e proteção
Os 197 anos da Capela das Mercês foram comemorados com música, quermesse, missas e forte emoção devido à reabertura do santuário. Foram nove meses de trabalho, que contou com a colaboração de técnicos e do empenho e mobilização da comunidade local, que formou uma brigada de salvamento dos escombros. Devido ao seu valor religioso e arquitetônico, a Capela sofreu intervenções de resgate, seleção e proteção de seus elementos construtivos e decorativos.
Tão logo as águas que destruíram o centro histórico baixaram, uma equipe técnica do Iphan se deslocou para a cidade a fim de apoiar os moradores e iniciar as ações de salvamento, escoramento e limpeza de todos os bens e imóveis atingidos. A equipe também elaborou projetos de reconstrução e restauro.
No trabalho executado, o Iphan manteve vivas na Capela a memória e as referências materiais da edificação original por meio da consolidação das paredes de taipa de pilão que não foram atingidas. Também recuperou as peças de madeiramento, estruturas de ferro, elementos decorativos e da cobertura que completavam o conjunto. Porém, o grande desafio era a imagem da padroeira, feita de terracota, que havia se partido em 90 pedaços, mas a recuperação foi feita com sucesso. Os itens que não puderam ser salvos ou recuperados foram refeitos, de acordo com a dimensão e o formato, verificados em documentação gráfica e fotográfica.
Concluído o trabalho, todos os elementos recuperados retornaram ao seu local de origem, reintegrados ao edifício.
Como mais uma medida preventiva, a superintendência do Iphan, em São Paulo, concluiu o dossiê de tombamento de São Luiz do Paraitinga, que foi incluída na lista das cidades sob a proteção do órgão.
Cápsula do Tempo
Durante o trabalho de pesquisa do entulho resultante da destruição da matriz, os técnicos do Iphan acharam uma “cápsula do tempo” – uma caixa com programação de teatro, mapas e jornais de época, guardada numa parede da igreja 70 anos atrás. Quem abriu a caixa foi Ari Guimarães, que tinha um ano quando a caixa foi guardada por seu pai, Romualdo Guimarães.
Integraram ainda a comitiva que visitou a cidade a superintendente do Iphan/SP, Anna Beatriz Ayrosa Galvão, o gerente de Patrimônio Histórico e Acervos do BNDES, Eduardo Mendeso, a pró-reitora de Cultura e Extensão da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, a presidenta do Instituto Elpidio Santos, Regina dos Santos, a presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) Fernanda Bandeira de Mello, e o arquiteto do Iphan responsável pelo projeto da reconstrução da capela, Antonio das Neves Gameiro.
(Texto: Nemésia Antunes, com informações de Nei Bomfim, Ascom/MinC)
(Fotos: Cristina Gallo, Ascom/MinC)
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