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sábado, 26 de maio de 2012 RSS Ouvidoria Fale com o Ministério
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Ordem do Mérito Cultural 2011

Discurso da ministra Ana de Hollanda na cerimônia realizada no Teatro de Santa Isabel, em Recife.

É com muita alegria que me vejo aqui hoje, nesta cidade do Recife, em Pernambuco, em dia de festa da cultura brasileira.

Como todos vocês sabem, a cerimônia de condecoração de personalidades e grupos, com a medalha da ordem do mérito cultural, é um evento nacional.

Mas não é por acaso que estamos aqui no Recife, no Teatro de Santa Isabel, linda casa centenária que rebrilha na história da criação cultural pernambucana. Assim como na história política do país – pois este teatro-monumento, um dos mais belos prédios teatrais do período imperial, serviu de palco à luta pela abolição da escravatura no Brasil, com as presenças ativas, aqui, de Castro Alves e de Joaquim Nabuco.

É claro que vocês, pernambucanos, conhecem essa história muito melhor do que eu. Mas há uma coisa que eu gostaria de lembrar, que também explica a escolha de realizar aqui a cerimônia da ordem do mérito cultural. Como se sabe, este teatro foi um dos signos mais vivos do processo de modernização de Pernambuco, na primeira metade do século 19. E, neste momento, Pernambuco experimenta um novo – e até mais profundo – processo de modernização.

Na verdade, Pernambuco vive hoje um momento muito especial de sua história. É um estado que está conseguindo combinar desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e desenvolvimento cultural – coisa que desejamos para todo o Brasil. Porque queremos um Brasil sem miséria. Um Brasil sustentável e includente. E porque apostamos na alta criatividade do nosso povo.

Daí, a nossa homenagem a Pagu, à bela guerreira Patrícia Galvão. Ela concentrou suas energias exatamente nesta direção, lutando contra a desigualdade social e se movendo sempre no sentido de alargar os horizontes da criação. Na verdade, podemos dizer que Pagu foi uma ativista do novo. Na criação estética, na prática política, na militância cultural, na luta pela ampliação da presença feminina na vida brasileira, na transformação da dimensão existencial, cotidiana.

Pagu é um raro e claro exemplo de casamento entre a sensibilidade e a práxis. É por isso mesmo que, no seu caso, não é um mero clichê, um estereótipo desbotado, dizer que vida e obra são inseparáveis. Para Pagu, criar, fazer e viver eram coisas que se realizavam no mesmo gesto, que se cristalizavam no mesmo ato, que se iluminavam num mesmo movimento.

Homenageando Pagu, estamos homenageando, também, a mulher brasileira. E, pelo fato de estarmos aqui, no Recife, homenageando, particularmente, as bravas e belas mulheres de Pernambuco, que começaram a construir este lugar – e este mundo – desde os primeiros tempos de Olinda e Igaraçu. E nada mais justo que esta homenagem aconteça neste teatro – ele mesmo batizado em homenagem a uma mulher, a uma grande brasileira, a Princesa Isabel.

Devo dizer, ainda, que a escolha de Pernambuco aviva a visão descentralizadora do Ministério da Cultura, que reconhece, acredita e investe na multiplicidade cultural brasileira. E Pernambuco, hoje, é um exemplo de que é possível, ao mesmo tempo, preservar e inovar. Manter viva as tradições culturais e, ao mesmo tempo, avançar por novos caminhos. É o que sempre defendemos, é o que defenderemos sempre: aliar tradição e invenção.

E isto no momento mesmo em que nos preparamos para dar uma virada decisiva na agenda cultural do país, para que nossos criadores comecem a se mover numa nova realidade, passando do atual patamar da dependência de patrocínios esporádicos para o novo estágio da sustentabilidade, que garanta a permanência e a continuidade do seu trabalho.

Sim. Não é mais possível que a criação cultural brasileira prossiga vivendo na dependência de verbas que nem sempre aparecem. Ou que aparecem e, depois, somem.

Publiquei um artigo, na semana passada, para dizer justamente isso. Para dizer que, muitas vezes, nossos criadores carecem de condições materiais para executar seus trabalhos. Saem correndo atrás de editais e concorrências, como se fossem aves migratórias. Com a diferença de que aves migratórias têm pouso certo – e nossos artistas, não. Vão por caminhos efêmeros e aleatórios. Conseguem trabalhar num ano – e, no ano seguinte, ficam sem ter o que fazer.

É preciso ultrapassar esse quadro de instabilidade, que trava o fluxo da criatividade nacional. Não podemos prosseguir assim. É hora de superar o efêmero e o precário em nossa vida cultural.

É hora de nos organizar para promover a sustentabilidade da criação estética e cultural em nosso país. Para mover, com sentido preciso, os moinhos e as turbinas da economia criativa. Para gerar, sem interrupções ou bloqueios, a energia limpa produzida pelas fontes, pelas cachoeiras, pelos ventos e pelas usinas da criatividade.

Mas não quero tomar o tempo de vocês discursando em demasia. Como disse antes, este é um evento nacional. Homenageamos aqui, hoje, pessoas dos mais diversos cantos e recantos deste nosso país.

Pessoas que, trabalhando de forma individual ou coletiva, engrandeceram e engrandecem nosso país. Pessoas que nos ensinaram e ensinam, com seus exemplos, com suas lições, com seus fazeres. Pessoas que souberam e sabem expressar a nossa alma, revelando o Brasil ao Brasil.

Enfim, hoje é dia de festa. Estamos aqui para celebrar e comemorar. Não quero repetir o que já escrevi na apresentação do catálogo que registra esta cerimônia. Lembro apenas que esta palavra – comemorar – diz tudo. Comemorar é co-memorar. Isto é: lembrar juntos, recordar coletivamente. Manter, na memória da tribo, o que de fato é memorável. O que merece ficar na lembrança de todos para sempre.

Como os trabalhos dos criadores individuais e dos atores coletivos que homenageamos aqui hoje, nesta noite pernambucana no Teatro de Santa Isabel.

Muito obrigada.

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