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Pedro Henrique Saraiva Leão. Médico, poeta e presidente da Academia Cearense de Letras

"A obra fica, nós iremos todos"

Pedro Henrique Saraiva Leão, atual presidente da Academia Cearense de Letras (ACL), exerce há 47 anos a profissão de médico especialista em colo-proctologia. Com seis livros de poesia publicados (e outros sete, por sua especialidade acadêmica), o escritor fala, em entrevista ao Caderno 3, sobre os desafios passados e futuros da Academia. Saraiva Leão anuncia planos para novas publicações, dele e da instituição que preside

A população é consciente da importância da Academia Cearense de Letras (ACL)?
Estamos trabalhando no sentido de divulgá-la, torná-la mais transparente. Outro dia alguém me perguntou porque acadêmicos são chamados de imortais. Respondi que a denominação imortal é dada ao que alguns escrevem. A obra fica, nós iremos todos. A imortalidade não é do ocupante, mas do que foi escrito por ele. Mas diria que a Academia é um pouco afastada sim, tanto topograficamente, por causa do Centro, quanto distante emocionalmente do povo.

Há uma reforma prevista para o Palácio da Luz que movimentará aquele entorno.
Aparentemente seria um "deus ex machina" (dispositivo surgido no teatro grego em que um elemento surge, repentinamente no meio da trama para resolver um problema aparentemente insolúvel), uma coisa quase impossível. Há muito tempo a Academia vem lutando para conseguir atualizar suas instalações, não modernizar, porque esse verbo não se coaduna com a ACL. O projeto de R$ 2 milhões está aprovado pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, e contou com grande força do cearense, e ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Ubiratan Aguiar. Nossa luta, agora, é conseguir que essa isenção facultada por lei interesse aos empresários. Mas o amparo dessa lei não significa que tudo esteja resolvido. "Modus in rebus". Alguém tem que se interessar por ela como maneira de diminuir seu imposto de renda. Sinto ainda algum receio dos empresários, acredito que até por falta de conhecimento da lei. Mas estamos conseguindo.

Quais as prioridades dessa reforma?
Será feita toda reestruturação do prédio do ponto de vista das instalações elétricas, hídricas, sanitárias, além da reforma da biblioteca que abriga livros raríssimos e que correm o risco de ficarem inutilizados pela pátina do tempo, além da recuperação da pinacoteca da Academia. Mas a segurança naquela região também é problema. Você sabe que alguém foi à praça General Tibúrcio (Praça dos Leões) a desoras e roubou um dos leões? Nossa placa de bronze foi roubada duas vezes. Há muitos meliantes que causam transtornos aos circunstantes.

Mas as atividades continuam a todo vapor?
Claro. Inclusive a criação da medalha Cláudio Martins, que será entregue próximo dia 24 de maio, em virtude da gratidão a esse acadêmico que me levou para Academia Cearense de Letras há 28 anos. Ele foi um grande presidente durante 17 anos, naquela época os mandatos eram mais longos. O primeiro recipiendário será o senador Tasso Jereissati, já que foi em uma de suas gestões que aquele prédio foi doado à ACL. Aliás, o bisavô dele, José Carlos da Costa Ribeiro Junior, pertenceu a Padaria Espiritual, movimento literário que antecedeu a Academia Cearense de Letras.

E as publicações?
Há quatro anos a Academia Cearense de Letras, nos segundos semestres, promove ciclos de conferência a respeito de Literatura, dos quais participam professores do Ceará e de outros Estados. Esses ciclos, que duram cerca de quatro meses, resultam na composição de livros, que vinham sendo editados pela Caixa Econômica Federal, mercê do prestígio e amizade ao nosso colega acadêmico Mauro Benevides. Não sei porque cargas d´água, a CEF não participa mais disso comigo. Mas, agora, conseguimos nos juntar ao Banco do Nordeste e garantir publicação dos últimos quatro ciclos de conferência, mais o que acontecerá este ano. É uma despesa de uns R$ 50 mil. Pouco para o banco, mas muito para nossa Academia, que vinha com essa linha sustada até então.

A Academia tem receita?
Vivemos uma inópia, uma pobreza franciscana. Não há dinheiro para quase nada. O governo tenta ajudar, mas não consegue. Vivemos à mercê de mecenas, de amigos que nos acodem episodicamente. Tomei posse em dezembro de 2008 para um mandato de dois anos, renovável por igual período. Me candidatei tanto porque ninguém queria, quanto porque sou otimista. É um desafio conseguir escrever algumas páginas novas na história da ACL e dar continuidade ao que vinha sendo feito. É muito fácil na administração pública que as coisas só surjam na gestão seguinte. Mas estamos renovando contratos, fazendo outros, em pouco tempo teremos boas novas.

Com dificuldades, mas sempre evoluindo.
Claro. Entre tantas características do Ceará, temos a de ser pioneiros no que tange à política e literatura, como abolição da escravatura, criação da primeira Academia de Retórica do Brasil, da primeira Academia de Letras, e outras. Estamos com 116 anos e, já naquele tempo, tínhamos nomes como Tomaz Pompeu de Sousa Brasil, que, aliás, dá nome à casa, e é bisavô da acadêmica e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Ângela Gutiérrez.

A Academia é como uma fonte que jorra história.
Nossa ACL foi baseada na Academia de Ciências de Lisboa, que também tem a sigla ACL. Muita gente acha que nos espelhamos na Academia Francesa, do Cardeal de Richelieu. Ledo engano! Mas todas essas instituições têm, basicamente, por finalidade precípua, e que é mais ou menos a base da universidade: evitar barbarismos, propagar e ensinar literatura, promover cursos e conferências, editar livros, enfim, sua função literária é de conservação do idioma.

Os acadêmicos contemporâneos mantêm a tradição.
Tenho certeza que o plantel da ACL tem bem o ideal da literatura no Ceará. Nossa Academia dá uma boa mostra do que foi e do que é a produção cearense. Mas, tenho que me dar conta que sou candidato à reeleição (risos). Tirante a blag, a academia tem grandes nomes, figuras solares de nossa literatura. Temos gente mais vivida, gente mais nova, professores de várias universidades, mas todas pessoas bem expressivas.

O senhor está com 13 livros publicados.
Pois sim, sou poeta, mas destes livros citados, sete são de medicina e seis de poesia, todos publicados pelas edições da Universidade Federal do Ceará (UFC). O que sei é que medicina e literatura nasceram juntas, sempre estiveram de braços dados, como irmãs siamesas. As primeiras descrições das feridas cirúrgicas você pode lê-las na Ilíada ou na Odisseia, de Homero, durante a Guerra de Troia. Mas estou preparando um novo livro de poesia, sim, que deve sair até dezembro, só não sei se será o último.

Pesidentes da ACL

Tomás Pompeu de Sousa Brasil (1894-1929)
Antonio Sales (1930-1937)
Tomás Pompeu Sobrinho (1937-1951)
Dolor Barreira (1952-1954)
Mário Linhares (1955-1956)
Raimundo Girão (1957-1958)
M.A.de Andrade Furtado (1959-1960)
Renato Braga (1961-1962)
Antonio Martins Filho (1963-1964)
Eduardo Campos (1965-1974)
Cláudio Martins (1975-1992)
Artur Eduardo Benevides (1993-2004)
José Murilo Martins (2005-2009)
Pedro Henrique Saraiva Leão (em exercício)

Natercia Rocha
Repórter